Estação dos Combatentes

Das Cidades Portuguesas II — Coimbra

Diria que és um rio pro­mo­vido a cidade, numa espé­cie de sim­bi­ose urbanístico-fluvial como se fos­sem pri­mos que par­ti­lham o san­gue, o ape­lido e nada mais.
És a cidade do meio, a medi­a­dora entre o grande Pai do Norte e a grande Mãe a Sul. Mas todos sabe­mos que, e até geo­gra­fi­ca­mente, estás mais perto do pai do que da mãe. E o que sem­pre gos­tei em ti foi a dig­ni­dade com que te sou­beste man­ter no meio, lembrando-te sem­pre que pas­sa­riam por ti, mesmo quando não qui­ses­sem, no cami­nho aór­tico por­tu­guês.
Fizeram-te dou­tora no cimo de ti, para que o rio visse e se lem­brasse que gerara uma sábia. Ou foi a sabe­do­ria que te fez rio? Se foi a cáte­dra que te fez cres­cer para o céu, foram os filhos de outras mães que edu­caste que mais te ama­ram na arte.
O Homem dos Bra­ços de Gui­tarra tocou-te a sau­dade para que a ouvis­ses e sou­bes­ses que nome tinha o que sen­tias pela prin­cesa cujo san­gue há-de sem­pre ficar lá na pedra.
Na pedra disseram-te mais encan­ta­dora na hora da des­pe­dida. Nunca pela tris­teza do adeus mas pelo mis­té­rio da sau­dade e pela von­tade do regresso.
Ou será que não ten­de­mos sem­pre para o meio?

Do fracasso

Ainda bem que falhaste. A sério. Achas mesmo que ias saber lidar com a gló­ria da mesma maneira sábia com que lidas com a der­rota? De que te valia a vitó­ria se a ias des­per­di­çar em cor­te­jos épicos e coroas de lou­ros a encimar-te a cabeça?
Senta-te a um canto. Sozi­nho: só tu é que per­deste, nunca na der­rota terás alguém con­tigo. Sen­tes o cheiro? Cheira à rigi­dez dos cor­pos páli­dos, sente a cada­ve­rina que se eleva do chão e te embebe a arma­dura. Ou será mor­ta­lha? Ou será pele? Ou será nada?
Por­que olhas o hori­zonte? Ten­tas nele pers­cru­tar alguma nuvem mais densa. Que­rias mesmo que cho­vesse. O mundo não tem de pac­tuar con­tigo na der­rota, sabes disso. Se te tives­sem feito morto ou pri­si­o­neiro ser-te-ia agora indi­fe­rente a chuva que não cai. Pena que os teus car­ras­cos não sai­bam a vitó­ria como tu sabes a der­rota. Olha, outro que dei­xou de gemer. Vês a vida esvair-se de um dos teus mais jovens sol­da­dos. Vês os seus olhos pro­cu­ra­rem a vida den­tro de si. Cru­el­dade tama­nha teres de ver a tua obra-prima sucum­bir em frente dos teus olhos.
Uma lança par­tida, uma espada entor­tada, uma fle­cha cor­tada, uma adaga cra­vada. Uma arma­dura per­fu­rada, uma túnica ras­gada, uma san­dá­lia esque­cida. A relva rubra, o san­gue ene­gre­cido. A vida extinta. A derrota.

- Não vol­tes a pin­tar mais qua­dros des­tes, sim?
– Não vol­tes a derrotar-me desta forma, sim?

Rule #1

“It doesn’t mat­ter Wha­te­ver you think matters-doesn’t. Fol­low this rule, and it will add deca­des to your life. It does not mat­ter if you are late, or early; if you are here, or if you are there; if you said it, or did not say it; if you were cle­ver, or if you were stu­pid; if you are having a bad hair day, or a no hair day; if your boss looks at you coc­keyed; if your girl­fri­end or boy­fri­end looks at you coc­keyed; if you don’t get that pro­mo­tion, or prize, or house, or if you do. It doesn’t mat­ter.“

Roger Rosen­blatt em “Rules for Aging: A Wry and Witty Guide to Life”

Das Cidades Portuguesas I — Aveiro

Não és, nunca foste e nunca serás a mais bonita. Falta-te o espaço, falta-te o cen­tro, falta-te a praça grande a fazer-te de cora­ção, falta-te a luz, falta-te a iden­ti­dade: és daque­las cida­des em que se cons­trói tudo por­que não tens nada. Exis­tes vazia, como se nunca nin­guém te habi­tasse, como se em ti ape­nas se pas­sasse e nunca se ficasse. Nunca em ti nada é antigo e mesmo o mais antigo parece falso: foi cons­truído, não nas­ceu ali.
Espraias-te na direc­ção do Oce­ano mas recusas-te a che­gar a ele, pre­fe­res ador­me­cer numa ria que não é ria. E até nisso és falsa! Quem chega a ti vê-te fechada em ti, com uma ponte e um canal por baixo, como uma ten­ta­tiva de seres um pequeno pos­tal de uma Veneza falhada. Que­res escon­der o quê? Tens alguma gran­deza em ti ou pre­ten­des ape­nas ocul­tar que não a tens?
Cons­truam em ti o que qui­se­rem, serás sem­pre vazia. Todas as casas serão sem­pre alu­ga­das, nunca nin­guém as com­prará, nunca nin­guém te esco­lherá para a vida. Cons­trui­rão em ti cas­te­los com o sal que te extraem mas atirar-to-ão outra vez assim que se far­ta­rem. Em ti os cas­te­los serão sem­pre uma brin­ca­deira de crianças.

Passa-se por ti, não se fica.

Das poesias I

“Ape­sar das ruí­nas e da morte,
Onde sem­pre aca­bou cada ilu­são,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exal­ta­ção
E nunca as minhas mãos ficam vazias.”

Sophia de Mello Brey­ner Andre­sen, Poe­sia (1944)

Das casas para Venda — I

Sabe, nunca nin­guém cá viveu a sério. Houve uma miúda que teve isto alu­gado durante uns meses mas foi embora. Dizia que não lhe com­pen­sava: o que ela que­ria era que lhe des­ces­sem a renda. Ainda vol­tou há pouco tempo, a ver se o tru­que fun­ci­o­nava, mas aca­bou por desis­tir. Tam­bém lhe digo: é natu­ral que não lhe com­pen­sasse, já que ela não sabia apro­vei­tar a casa que aqui tinha. Está a ver esta janela? Tem uma das melho­res vis­tas da casa. Sabe o que ela lhe fez? Tapou com um móvel. Dizia que lhe inco­mo­dava tanta luz. E quem diz esta janela, diz outras a que ela fez o mesmo. Em algu­mas meteu uns repos­tei­ros pesa­dos que ás vezes, com esforço, abria para dei­xar entrar alguma luz mas que no resto do tempo esta­vam fecha­das. Sabe o que valeu? Quando foi embora levou tudo. Tudo, tudo, tudo. Mas o senho­rio disse logo que a par­tir de agora era para ven­der. Alu­gar nunca mais! Dá-lhe dema­si­ado tra­ba­lho aguen­tar estas coi­sas todas. Como é que nunca nin­guém a com­prou? Olhe, nem sei bem. Pri­meiro o dono que­ria ven­der isto a todo o custo. Depois como nin­guém que­ria com­prar, ten­tou que alu­gas­sem mas mesmo assim isto estava sem­pre vazio. Esteve aí outra moça há mui­tos anos, mas só esteve um mesito. Nem che­gou a assen­tar. O que é estra­nho nisto tudo é que é uma casa boa, tem uma vista lin­dís­sima e é espa­çosa mas fle­xí­vel ao mesmo tempo. Veja esta cozi­nha, que cate­go­ria! Grande e equi­pada, como se quer. E o jar­dim? Já viu bem isto? Tem aqui espaço para uma pis­cina, se assim qui­ser. Para viver aqui em famí­lia, é uma mara­vi­lha. Tem espaço para a cana­lha e para um ani­mal que queira. Além do espaço para arru­ma­ção. Sin­ce­ra­mente, não per­cebo. Sei que do lado da rua não tem o melhor aspecto mas bas­tava terem-se dado ao tra­ba­lho de visi­tar que viam logo que valia a pena. O sotão? Não lhe vou men­tir: é o pior da casa. O senho­rio guarda lá as tra­lhas dele e tem aquilo cheio de lixo. Cai­xas, cai­xas e mais cai­xas, todas cheias de pó. Sin­ce­ra­mente nem sei o que tem lá den­tro. Acho que são coi­sas da escola: livros e cader­nos e não sei que mais. O senho­rio anda há anos para lim­par aquilo mas ainda não se deci­diu. Outro dia disse-me que ia man­dar lim­par aquilo. Vamos a ver se é desta…”

Das Prisões

Lembra-te da minha pri­são, do lugar vul­gar e sem pare­des onde me man­têm apri­si­o­nado. Não te esque­ças por favor da deco­ra­ção da minha cela, dos car­ros a pas­sar e do cimento já velho, das árvo­res aca­ba­das e dos arbus­tos egoístas.

Perguntas-me por­que nunca dela saí e não resisto a sorrir-te: nin­guém está preso por­que quer, muito menos numa pri­são como a minha. Não posso sim­ples­mente levantar-me e ir embora, pre­ciso de alguém que me vá bus­car, alguém que aguarde por mim à porta.

Estou farto das gri­lhe­tas que veludo que me pren­dem o cora­ção, estou farto das gri­lhe­tas de san­gue que me pren­dem as mãos e acima de tudo estou farto de não saber qual é a chave do meu cade­ado.
Aproxima-se o dia da minha exe­cu­ção. Ainda não sei como me vão matar: não sei se me cor­tam a cabeça ou se me enfor­cam na praça pública, se me arran­cam o cora­ção pelas cos­tas ou se me que­bram na roda. Por favor, não me exe­cu­tem hoje. Hoje não.

Um dia, daqui a mui­tos anos, quando a minha liber­dade for assi­nada e eu puder, final­mente, andar livre entre os homens, sem­pre que pas­sar­mos à porta da minha pri­são, quero que me aper­tes a mão com força ape­nas para me mos­tra­res que te lem­bras. Eu sei que não esque­ce­rei. Dir-me-ás “eu sei”, bai­xi­nho como um segredo só nosso e vou sentir-me ver­da­dei­ra­mente livre. Vou olhar para os car­ros que ainda lá vão pas­sar, para o cimento velho e para a flora que já deverá estar quase morta. Vou lem­brar os anos, olhar os pul­sos e o cora­ção, ver as mar­cas das alge­mas que nunca sai­ram: ape­nas se cor­ta­ram as cor­ren­tes. Posso agora come­çar a viver? Anda, aperta-me a mão.

Eu sei.”

Das recordações

Lembro-me. Lembro-me muito bem, aliás. Lembro-me de acor­dar sem ter muito bem a cer­teza do que ia fazer, como se fosse desem­bar­car na Nor­man­dia e ter-me esque­cido de como dis­pa­rar uma arma ou nem sequer me lem­brar que está­va­mos em guerra.

Lembro-me de cho­rar, não sei exac­ta­mente porquê. E lembro-me tam­bém de parar de cho­rar no exacto momento em que virei as cos­tas ao pre­sente. “Está tudo bem, a sério.”

Con­sigo recordar-me vaga­mente da via­gem e das hos­pe­dei­ras e do almoço de aero­porto. Lembro-me do ar ali­vi­ado de todos os que ao embar­car regres­sa­vam e lembro-me do meu ar grave de quem ia pela pri­meira vez.

Lembro-me da cami­o­neta, das per­nas aper­ta­das entre malas e cadei­ras e do cora­ção aper­tado entre o ner­voso, o medo e a sur­presa. Lembro-me do senhor fran­cês, alma cari­dosa que nos apon­tou na direc­ção certa. Obri­gado, onde quer que este­jas. Lembro-me da infi­nita con­versa da treta, a manter-me de vigí­lia, sem­pre de olhos pos­tos no hori­zonte que nunca mais chegava.

Lembro-me de che­gar e olhar em volta e achar que a festa tinha ter­mi­nado. “Só isto?”, pen­sei. Chei­rava a cimento molhado depois da chuva mas sin­ce­ra­mente não me lem­bro se tinha cho­vido ou não. Na minha memó­ria, tinha cho­vido tor­ren­ci­al­mente, na rea­li­dade, não tenho a certeza.

Via­jei no tempo, estava agora na década de 80. Não tocam os Duran Duran na rádio? O Muro ainda lá está, certo? Não per­cebo nada do que está para aí a dizer, senhor, mas aposto que é muito inte­res­sante e eu ganha­ria alguma coisa em per­ce­ber. Ah, sim, temos fome, rapa­riga. Sim, leva-nos a sítios para comer­mos. Está tudo fechado. Paci­ên­cia. As maçãs da tua casa são as melho­res do mundo, sim. E tomate diz-se “pomidor”.

Lembro-me do ani­mal que foi o pri­meiro medo que venci, deixando-me dor­mir com ele por perto. Não per­cebo estes len­çóis mas agora tam­bém não estou inte­res­sado em perceber.

Lembro-me de não pen­sar em mais nada, de ver a porta pin­tada com uns giras­sóis e os guarda-vestidos meios des­fei­tos. Não usam esto­res, estes desgraçados.

Olha, já é de dia. E que dia hor­rí­vel. Tudo parece velho e des­gas­tado e, ainda assim, sinto-me em casa. Che­gá­mos tarde, pedi­mos des­culpa, apren­de­mos as fru­tas e os vege­tais e outras coi­sas que tais.

E lembro-me de mais por­me­no­res, de deta­lhes míni­mos de máxima insig­ni­fi­cân­cia, que vão dos nomes das ruas aos núme­ros das por­tas, do preço do pão aos horá­rios dos eléc­tri­cos. Lembro-me, lembro-me muito bem.

Lembro-me de tudo o que dei­xei. Lembro-me de par­tir. Lembro-me de estar.

 

Só não me lem­bro de ter voltado.

Powodzenia!

Megas, Johnny, Vanessa e Filipa: “façam o favor de ser felizes”.

O Porto há-de cá estar quando vol­ta­rem. Eu sei que sim.

Sonhei que estava a caminho

…a cami­nho de casa.