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	<title>Estação dos Combatentes &#187; pt</title>
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		<title>Das Perguntas Difíceis</title>
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		<pubDate>Thu, 24 Nov 2011 16:27:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>lamelas</dc:creator>
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		<description><![CDATA[- Olhe, desculpe-me: como é que eu chego à Assembleia da Republica? Estava vagamente perdido na zona de Santos. Gosto de Lisboa mas como não nativo acabo, de vez em quando, por me perder ou desorientar. Reparei, após ter feito a pergunta, na bandeira francesa hasteada no primeiro andar do edifício em frente. Tenho uma [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>- Olhe, desculpe-me: como é que eu chego à Assembleia da Republica?</p>
<p>Estava vagamente perdido na zona de Santos. Gosto de Lisboa mas como não nativo acabo, de vez em quando, por me perder ou desorientar. Reparei, após ter feito a pergunta, na bandeira francesa hasteada no primeiro andar do edifício em frente. Tenho uma vaga lembrança de a Embaixada de França ser pela zona mas, reitero: não conheço Lisboa assim tão bem.</p>
<p>O policia a quem me dirigi ergueu os olhos do iPhone em que focava a sua atenção. Possivelmente tentava as quase inalcançáveis três estrelas num dos níveis finais do Angry Birds. Presumo que só isso o impedia de morrer de tédio.</p>
<p>- Olhe, desculpe-me: como é que eu chego à Assembleia da Republica?</p>
<p>Após recolocar mentalmente a pergunta, veio-me à cabeça uma velha piada. Julgo que é qualquer coisa do género:</p>
<p>Um músico que tocava na rua é abordado por um transeunte que lhe pergunta:<br />
– Olhe, desculpe-me: como é que eu chego a Carnegie Hall?<br />
– Praticando muito.</p>
<p>Não é que possua uma ambição em termos de carreira política mas achei curioso como a minha pergunta, inocente, afinal podia estar armadilhada.</p>
<p>- Olhe, desculpe-me: como é que eu chego à Assembleia da Republica?</p>
<p>A resposta podia ser “inscrevendo-se num partido e participando muito”. Claro que também podia dizer “mentindo muito” ou “roubando muito”, é que segundo a visão popular, são todos uns gatunos, bem o sabemos.</p>
<p>- Vai por esta rua sempre em frente e lá ao fundo vira à esquerda; se virar à direita vai dar ao rio — respondeu-me, simpático e com um sorriso.</p>
<p>Pensando mais uma vez nas ligações políticas que se podiam fazer, agradeci e segui em frente. Cheguei, eventualmente, à intersecção onde supostamente escolheria entre o rio e o Parlamento.</p>
<p>Atravessei com cautela a estrada: o corrupio entre os extremos era intenso em ambos os sentidos. Havia os que se aproximavam ambiciosamente da Assembleia e os que, a medo, eram empurrados na direcção do Tejo (que, como sempre, parecia indiferente a tudo isto, com a sua dourada pacatez).</p>
<p>Segui em frente após chegar ao passeio do outro lado. A pergunta tinha, para mim, meramente o intuito de confirmar. Não só eu sabia o caminho, como sabia que não era ao Parlamento que eu queria ir ter, estava apenas a garantir que não seguia o caminho errado. Não queria mesmo ir lá ter. Nem tão pouco ao rio, refira-se.</p>
<p>Dois turistas interpelam-me e julgo não ter percebido correctamente a pergunta:</p>
<p>- Olhe, desculpe-me: como é que eu chego a Príncipe Real?</p>
<p>Lembrei-me que ainda devem haver princesas solteiras nas casas reais europeias mas não devia ser bem essa a resposta esperada.</p>
<p>- Desculpe, não sou de cá.</p>
<p>Entrei depois num café e pedi uma limonada. Felizmente as perguntas complicadas tinham acabado.</p>
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		<title>Das Poesias V — Chico</title>
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		<pubDate>Wed, 22 Jun 2011 12:11:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>lamelas</dc:creator>
				<category><![CDATA[pt]]></category>

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		<description><![CDATA[Talvez não fosses forte para a felicidade, nem para o medo. Olha as pessoas felizes: ocultam-se na felicidade como em casa, erguem muros, fecham as janelas, o medo é a sua fortaleza. O que disputam à morte é maior que elas, a morte não lhes basta. Manuel António Pina, in “Cuidados Intensivos”]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Talvez não fosses forte<br />
para a felicidade,<br />
nem para o medo. </p>
<p>Olha as pessoas felizes:<br />
ocultam-se na felicidade<br />
como em casa, erguem </p>
<p>muros, fecham as janelas,<br />
o medo<br />
é a sua fortaleza. </p>
<p>O que disputam à morte<br />
é maior que elas,<br />
a morte não lhes basta. </em></p>
<p><span style="text-decoration: underline;"><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Manuel_António_Pina">Manuel António Pina</a></span>, in “Cuidados Intensivos”</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Agá</title>
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		<pubDate>Wed, 27 Apr 2011 22:03:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>lamelas</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O H maiúsculo, na sua forma, assemelha-se às duas margens de um rio unidas por uma ponte. Acho curioso observar que é por essa mesma letra que começa a palavra que designa a arte de construir pontes entre o passado e o futuro passando sobre o presente: a História. A poética levar-nos-ia agora a concluir [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O H maiúsculo, na sua forma, assemelha-se às duas margens de um rio unidas por uma ponte. Acho curioso observar que é por essa mesma letra que começa a palavra que designa a arte de construir pontes entre o passado e o futuro passando sobre o presente: a História. A poética levar-nos-ia agora a concluir que o rio sobre o qual a História constrói pontes é o Lete, o tal rio mitológico cuja água provocava o esquecimento a quem a bebesse.</p>
<p>Podemos extrapolar a ideia, claro: “contar uma história” é, também, fazer pontes. Temos, por exemplo, a ponte que se cria entre nós, que a contamos, e o outro, que a ouve. Dessa ligação inicial, novas pontes irão brotar. Uma vez iniciado, o movimento não será eterno mas a sua expansão será demasiado veloz para que a possamos acompanhar ou traçar.</p>
<p>Parte de nós aquele ímpeto inicial em que, vigorosamente, atacamos o H e lançamos a corda. Seja para contar como nos correu o dia ou o filme que já vimos vezes sem conta, nunca será menos potenciadora uma ponte do que outra. E mesmo que a passagem, quer do tempo quer da água, todos os dias lhe tente erodir as fundações, poderemos sempre fazer alguma coisa porque uma nova história servirá para ligar em outro ponto as duas margens.</p>
<p>As histórias partem sempre de um passado e é por isso que as contamos. Diria até que há um certo processo de anamnese no acto de contar uma história, como se todas as ligações já tivessem sido possíveis e nos limitássemos a recriá-las no presente.</p>
<p> </p>
<p>Tradicionalmente, todas as histórias começam por “era uma vez”. Na verdade, todas as histórias começam por H.</p>
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		<title>Trinta e sete</title>
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		<pubDate>Mon, 25 Apr 2011 22:54:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>lamelas</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Quando eu nasci, o 25 de Abril já era feriado. Quando eu nasci não tinha noção do que isso representava ou sequer do que era representar ou sequer do que era um feriado. Mas a 25 de Abril de 1985, lá estava eu, de punho erguido, tenho a certeza. Porque era essa a beleza latente [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Quando eu nasci, o 25 de Abril já era feriado. Quando eu nasci não tinha noção do que isso representava ou sequer do que era representar ou sequer do que era um feriado. Mas a 25 de Abril de 1985, lá estava eu, de punho erguido, tenho a certeza. Porque era essa a beleza latente na Revolução, vista assim, à distância de quem não a viveu: por muito que não a percebêssemos, era a Revolução de todos nós para todos nós.</p>
<p>Talvez por isso no dia de contar os anos à Revolução caio sempre no vaidoso exercício de imaginar que foi por mim que naquele “dia inicial, inteiro e limpo” se saiu à rua e se falou mais alto e se ergueu os braços.</p>
<p>E a felicidade faz-me o coração acelerar porque sim, foi também por mim.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Das Poesias IV — Salgueiro Maia</title>
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		<pubDate>Mon, 04 Oct 2010 10:56:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>lamelas</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Aquele que na hora da vitória Respeitou o vencido Aquele que deu tudo e não pediu a paga Aquele que na hora da ganância Perdeu o apetite Aquele que amou os outros e por isso Não colaborou com a sua ignorância ou vício Aquele que foi «Fiel à palavra dada à ideia tida» Como antes [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Aquele que na hora da vitória<br />
Respeitou o vencido</em></p>
<p><em>Aquele que deu tudo e não pediu a paga<br />
Aquele que na hora da ganância<br />
Perdeu o apetite<br />
</em><br />
<em>Aquele que amou os outros e por isso<br />
Não colaborou com a sua ignorância ou vício<br />
</em><br />
<em>Aquele que foi «Fiel à palavra dada à ideia tida»<br />
Como antes dele mas também por ele<br />
Pessoa disse.</em><br />
<em> </em><br />
<span style="text-decoration: underline;"><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Sofia_de_Melo_Breyner">Sophia de Mello Breyner Andresen</a></span></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Das Poesias III — Rita and the rifle</title>
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		<pubDate>Mon, 30 Aug 2010 14:57:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>lamelas</dc:creator>
				<category><![CDATA[pt]]></category>

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		<description><![CDATA[Between Rita and my eyes there is a rifle And whoever knows Rita kneels and prays To the divinity in those honey-colored eyes And I kissed Rita When she was young And I remember how she approached And how my arm covered the loveliest of braids And I remember Rita The way a sparrow remembers [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Between Rita and my eyes there is a rifle<br />
And whoever knows Rita kneels<br />
and prays<br />
To the divinity in those honey-colored eyes<br />
And I kissed Rita<br />
When she was young<br />
And I remember how she approached<br />
And how my arm covered the loveliest of braids<br />
And I remember Rita<br />
The way a sparrow remembers its stream</em></p>
<p><em>Ah, Rita</p>
<p></em></p>
<p><em>Between us there are a million sparrows and images<br />
And many a rendezvous<br />
Fired at by a rifle<br />
Rita’s name was a feast in my mouth<br />
Rita’s body was a wedding in my blood<br />
And I was lost in Rita for two years<br />
And for two years she slept on my arm<br />
And we made promises<br />
Over the most beautiful of cups<br />
And we burned in the wine of our lips<br />
And we were born again</em></p>
<p><em>Ah, Rita!</em></p>
<p><em>What before this rifle could have turned my eyes from yours<br />
Except a nap or two or honey-colored clouds?<br />
Once upon a time<br />
Oh, the silence of dusk<br />
In the morning my moon migrated to a far place<br />
Towards those honey-colored eyes</em></p>
<p><em> </em></p>
<p><em>And the city swept away all the singers<br />
And Rita<br />
Between Rita and my eyes — A rifle</em><br />
<em> </em><br />
<span style="text-decoration: underline;"><a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Mahmoud_Darwish">Mahmoud Darwish</a></span></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Dos becos</title>
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		<pubDate>Tue, 30 Mar 2010 21:45:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>lamelas</dc:creator>
				<category><![CDATA[pt]]></category>

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		<description><![CDATA[Era uma canção extremamente melancólica. Acho que da Gloria Estefan, aquela do “Con Los Años Que Me Quedan”. E ouvia-se vinda de uma janela algures lá em cima. Debaixo do óculo da distância temporal, já não me lembro sequer qual Via ou Vicolo era, como se se tratasse de uma memória apagada, roubada a esta [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Era uma canção extremamente melancólica. Acho que da Gloria Estefan, aquela do “<a class="zem_slink" title="Con los años que me quedan" rel="wikipedia" href="http://en.wikipedia.org/wiki/Con_los_a%C3%B1os_que_me_quedan">Con Los Años Que Me Quedan</a>”. E ouvia-se vinda de uma janela algures lá em cima. Debaixo do óculo da distância temporal, já não me lembro sequer qual Via ou Vicolo era, como se se tratasse de uma memória apagada, roubada a esta cidade que sempre as soube guardar com vigor, nem que delas apenas restem pedras.</p>
<p>Como sítio, seria decalcado para um postal houvesse um qualquer fotógrafo a lá ter passado. Era estreito, não mais do que três metros de largura. Havia um arco, debaixo do qual se passava para seguir em frente ou voltar para trás, não esquecendo nunca que há sempre dois sentidos. Em tudo. As paredes pintadas daquele laranja barrento filtravam o azul do céu limpo que Fevereiro oferecia, reflectindo apenas uma luz sépia, desprovida de brilho.</p>
<p>Pequenos vasos meios floridos e encostados à parede pontuavam com verde aquele cenário quase desértico, amarelado, melancólico.</p>
<p>Várias janelas, na sua maioria fechadas. Sobravam a da música e uma ou outra onde se avistavam cortinas fugitivas, dançando na ligeira brisa que o Tibre fazia soprar. Três degraus separavam da rua a única porta existente. Sentada, julguei-a assustada ao ver-me aparecer, com ar de turista, de descobridor, de perdido. Sorriu-me. Pelos olhos diria que tinha chorado todas as mágoas do mundo mas que juntara em si todas as forças que tinha para me oferecer aquele sorriso. Havia nele uma imploração desesperada, um clamor digno de um moribundo suplicando a extrema-unção para poder ao mundo dizer adeus em paz.</p>
<p>Sentei-me a seu lado e estendi-lhe a mão. Ela apertou-a e voltou ao seu choro de purificação, de limpeza, de catarse.</p>
<p>Não sei se seria cansaço, mas as lágrimas pararam. Pediu-me desculpa, agradeceu-me, disse que não sabia o que fazer, agradeceu-me outra vez, pediu-me desculpa. E falou. Falou ininterruptamente durante algum tempo.</p>
<p>Falou de um Verão que passaram em não sei onde, perto da Sicília, e de algo que ele lhe tinha dito e ela tinha acreditado. Acho que tinha a ver com amor. Falou de um concerto onde tinham ido e onde tinham os dois chorado abraçados. Contou-me a história de como se tinham conhecido e de como ele tinha o cheiro do seu pai (ou de como ela se lembrava do seu pai ter sido). Contou uma qualquer história que ligava a Via Flaminia à Piazza della Radio através de um Little Yankee e explusou uma recordação que envolvia a Fonte de Trevi. Foi revelando os passos que a trouxeram até ali, ao beco, purgatório escondido no meio da Cidade Eterna. Havia nela a inquietude de uma idade adulta não alcançada, de um salto falhado em direcção ao crescer. Continuei a dar-lhe a mão e a ouvi-la. Soube-lhe a história, a vida, os sonhos, as alegrias e as crenças.</p>
<p>Calou-se. Voltaram as desculpas. Perguntou-me se era mudo. Sorri. Disse-lhe que de mudo não tinha nada, que falava até demais. “Podias ter dito para me calar”.</p>
<p>Levantei-me. Queria ter-lhe dito alguma frase digna de Confúcio, um silogismo pleno de sabedoria, uma máxima altamente citável. Só consegui balbuciar que não lhe restava mais nada na vida senão viver e seguir em frente. “Tens razão”</p>
<p>Acho que ainda a ouvi dizer que se chamava Claudia mas perdi entretanto a concentração. Outra vez a Gloria Estefan.</p>
<p>Alguém ouvia o raio da música e ali, com tudo aquilo, fazia todo o sentido.</p>
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		<title>Das Asas</title>
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		<pubDate>Tue, 03 Nov 2009 14:43:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>lamelas</dc:creator>
				<category><![CDATA[pt]]></category>

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		<description><![CDATA[Nem precisavas de ter explicado a fotografia. Estás coberta, protegida, a salvo dos fantasmas da lascívia do mundo. Sorris ligeiramente, como só a verdadeira felicidade o permite (sabes bem que todos os outro sorrisos são forçados à alma por um corpo obstinado). Olhas para longe com a displicência daqueles a quem o mundo já não chega e só para [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nem precisavas de ter explicado a fotografia.<br />
Estás coberta, protegida, a salvo dos fantasmas da lascívia do mundo. Sorris ligeiramente, como só a verdadeira felicidade o permite (sabes bem que todos os outro sorrisos são forçados à alma por um corpo obstinado). Olhas para longe com a displicência daqueles a quem o mundo já não chega e só para lá do horizonte está o sítio onde se pertence. O enlevo com que repousas lembra-me uma qualquer obra-prima, esboço imperfeito de uma perfeição completa. Sei que te classificarias divina, ousasse algum humano chegar perto de ti a inquirir quem eras. Há uma porta aberta, desfocada, que não capta o nosso olhar porque não queremos sair dali. Há um canto de um mapa que a objectiva cortou, para que fosse uma lembrança indeterminada no espaço.</p>
<p>Dor. Sei que é isso que te resta hoje ao veres esta fotografia. Lembras-me o anjo de Garrett, o das asas brancas, o que as perdeu e nunca mais conseguiu subir ao céu em se cansando do mundo. Amarram-te agora cordas grossas, que roças na pele até fazer ferida quando delas te tentas soltar. Despem-te, puxam-te o cobertor e roubam-te a almofada para os substituírem pelo vento frio de inverno e por uma pedra de arestas pontiagudas. Recusas a que te vejam as feridas, os restos das asas cortadas a sangue frio (haverá anestesia alguma capaz de impedir as mágoas do amor amputado?). Mostro-te as minhas feridas.<br />
Nunca tive asas como as tuas mas cicatrizes não me faltam. Sei que as achas ridículas de tão pequenas mas mostro-te como me doem.</p>
<p>Passam-se os dias e confias em mim. Sangras, limpo-te as feridas; gemes, oiço-te; choras, seco-te as lágrimas. Mostras-me o sangue que escorreu pelo chão áspero da cela em que te prenderam para que eu veja a tua dor maior que o mundo. Mostras-me as penas das asas que te arrancaram, explicas-me o processo da crueldade a que te sujeitaram. Ajudo a transferir-te para outra cela, mais clara. Insistes em levar os restos das asas. Sei que ainda acreditas que as podem reviver, colá-las ao teu dorso e veres-te de novo a voar. Já sei que não servem as asas que te tentam impingir mas não é por mal que o fazem.</p>
<p>Da prisão, nunca te poderei libertar. Só tu por tua força dela poderás fugir. E eu, só com a minha força conseguirei fugir também. As fugas fazem-se sozinhas aqui. Sempre. Podias nunca me ter dito nada que ao mostrares-me a fotografia perceberia tudo: saberia as tuas dores, as tuas mágoas, as tuas histórias, os teus voos. Saberia que, mais do que tudo, precisarias de quem te fizesse aguentar a tua estadia terrena. Serás deusa outra vez, minha querida, acredita em mim.</p>
<p>Mas até lá, esquece-te dos céus e aproveita a Terra.</p>
<p style="text-align: right;"><em>Para a Sara</em></p>
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		<item>
		<title>Das Poesias II — Fado para a Lua de Lisboa</title>
		<link>http://lamelas.org/blog/2009/07/das-poesias-ii-fado-para-a-lua-de-lisboa/</link>
		<comments>http://lamelas.org/blog/2009/07/das-poesias-ii-fado-para-a-lua-de-lisboa/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 23 Jul 2009 15:21:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>lamelas</dc:creator>
				<category><![CDATA[pt]]></category>

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		<description><![CDATA[Ó Lua, espelho do chão que andas no céu pendurado, holofote da ilusão pelo turismo alugado, não ilumines em vão os sulcos do empedrado! – Denuncia nas valetas as sombras que tu arrastas: prostitutas, proxenetas, silhuetas de pederastas… Colos brancos. Rendas pretas. Casas tortas. Pedras gastas. – As rugas do sobressalto, Ó Lua não as [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Ó Lua, espelho do chão<br />
que andas no céu pendurado,<br />
holofote da ilusão<br />
pelo turismo alugado,<br />
não ilumines em vão<br />
os sulcos do empedrado!<br />
–<br />
Denuncia nas valetas<br />
as sombras que tu arrastas:<br />
prostitutas, proxenetas,<br />
silhuetas de pederastas…<br />
Colos brancos. Rendas pretas.<br />
Casas tortas. Pedras gastas.<br />
–<br />
As rugas do sobressalto,<br />
Ó Lua não as destruas!<br />
Tu viste carros de assalto<br />
rondarem por estas ruas;<br />
viste rolarem no asfalto<br />
vestes mais alvas que as tuas.<br />
–<br />
Foste a lua a que se expunha<br />
aos tiros a multidão;<br />
espelhaste na tua unha<br />
a secular aflição;<br />
e já foste testemunha<br />
dos fogos da Inquisição.<br />
–<br />
Procissões do Santo Ofício…<br />
Fileiras de condenados…<br />
À noite, nem só o vício<br />
rasteja por estes lados:<br />
as serpentes do suplício<br />
silvam nos pátios murados…<br />
–<br />
Ó Lua, guarda o retrato<br />
de tudo, tudo a que assistas!<br />
Não queiras passar ao lado<br />
da desgraça que visitas!<br />
Nem queiras ser infamado<br />
passatempo de turistas!<br />
–<br />
Clorofórmio dos enfermos,<br />
se foges dos hospitais,<br />
então recolhe-te aos ermos<br />
desertos celestiais!<br />
E enquanto te não merecermos<br />
não te acendas nunca mais!</p>
<p></em><span style="text-decoration: underline;"><a href="http://en.wikipedia.org/wiki/David_Mourão-Ferreira">David Mourão-Ferreira</a></span></p>
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		<title>Sem Título</title>
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		<pubDate>Mon, 20 Jul 2009 20:34:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>lamelas</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Exercitamos sempre a mente como crianças. Imaginamos, brincamos ao faz de conta, pensamos “e se fosse eu ali?”. Será maior a frequência das vezes que nos imaginaremos bombeiros, médicos, astronautas, reis, deuses ou pais do que taxidermistas, escravos, mendigos, funcionários públicos, jardineiros ou lenhadores. Hoje faço o raro exercício de me imaginar editor de jornal. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Exercitamos sempre a mente como crianças. Imaginamos, brincamos ao faz de conta, pensamos “e se fosse eu ali?”. Será maior a frequência das vezes que nos imaginaremos bombeiros, médicos, astronautas, reis, deuses ou pais do que taxidermistas, escravos, mendigos, funcionários públicos, jardineiros ou lenhadores.<br />
Hoje faço o raro exercício de me imaginar editor de jornal. Um jornal qualquer, mas não num dia qualquer. Não nos imaginamos médicos a salvar uma vida qualquer, imaginamo-nos médicos a salvar uma determinada vida. Imagino-me editor de um qualquer jornal há quarenta anos atrás. A missão? Escolher um título para a capa, claro. Todos os jornais do mundo terão títulos sobre a Lua, sobre o feito, sobre os homens que pela primeira vez lá foram. Hoje, quarenta anos depois ninguém se lembrará das outras notícias menores que estarão também na capa. Tenho de encontrar um título. Um bom. Mentira, um óptimo título. Um que fique, um que seja histórico como a frase de Neil Armstrong. Que poderia ter dito ao chegar à Lua a frase de um outro Armstrong, este de nome Louis, “What a Wonderful World”.<br />
Perco horas a imaginar o título. Já podia ter saltado de ideia, já podia ser Armstrong a imaginar uma outra frase para ficar na História, ou poderia ser Kennedy a prometer a Lua. Não, continuo preso ao editor que quer que o mundo lembre a capa do seu jornal. Escrevem-se os artigos, as poesias jornalísticas do dia em que o homem, pela primeira vez, caminhou fisicamente na Lua. A redação está ao rubro. Mas espera-se um título, uma frase que não será histórica mas contará a História. “The Eagle has landed” Ocorrem-me metáforas com pássaros, comparações a deuses.  Armstrong, Aldrin. Partilho com eles a primeira letra do nome. Aldrin, André, Armstrong. Poderia ter sido eu, não fosse eu um pobre editor de jornal.<br />
Vem-me à cabeça um livro infantil: “Flicts”. O livro conta a história de uma cor que procura o seu lugar no mundo. Termina com Neil Armstrong a confirmar: “The Moon is Flicts”. Só lá, a cor encontrou o seu lugar. Não poderia ter sido este o meu título, mas era um dos bons: “A Lua é Flicts”.<br />
“Só falta o título, senhor editor”, diz-me um qualquer personagem do meu sonho, despertando-me para a hora da decisão no meu mundo imaginado. E deixo para trás as cores, as poesias, as autenticidades jornalísticas ou as frases históricas.<br />
Decidi-me por não ter nenhum título, apenas uma foto. Na altura não seria possível pois provavelmente não chegaria a tempo de ser publicada, a tecnologia não o permitiria, sei lá: não sou um editor a sério e de jornalismo sei pouco. Ficaria esta foto apenas. Sei bem que o que nos levou lá foi apenas a vontade imensa de nos vermos a nós próprios. Como quando capturamos as cores num quadro ou esculpimos um poema, como quando amamos com o dom da amizade ou com o dom do amor, resume-se tudo a expelir-mo-nos para que nos vejamos em outras formas ou nos outros. De fora. Vermo-nos. Da Lua.</p>
<div style="text-align:center;"><img src="http://lamelas.org/blog/wp-content/uploads/2009/07/apollo08_earthrise.jpg" alt="apollo08_earthrise.jpg" border="0" width="500" height="467" /></div>
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