Estação dos Combatentes

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Das Asas

Nem pre­ci­sa­vas de ter expli­cado a foto­gra­fia.
Estás coberta, pro­te­gida, a salvo dos fan­tas­mas da las­cí­via do mundo. Sorris ligei­ra­mente, como só a ver­da­deira feli­ci­dade o per­mite (sabes bem que todos os outro sor­ri­sos são for­ça­dos à alma por um corpo obs­ti­nado). Olhas para longe com a dis­pli­cên­cia daque­les a quem o mundo já não chega e só para lá […]

Das Poesias II — Fado para a Lua de Lisboa

Ó Lua, espe­lho do chão
que andas no céu pen­du­rado,
holo­fote da ilu­são
pelo turismo alu­gado,
não ilu­mi­nes em vão
os sul­cos do empe­drado!

Denun­cia nas vale­tas
as som­bras que tu arras­tas:
pros­ti­tu­tas, pro­xe­ne­tas,
silhu­e­tas de pede­ras­tas…
Colos bran­cos. Ren­das pre­tas.
Casas tor­tas. Pedras gas­tas.

As rugas do sobres­salto,
Ó Lua não as des­truas!
Tu viste car­ros de assalto
ron­da­rem por estas ruas;
viste rola­rem no asfalto
ves­tes mais alvas que as […]

Sem Título

Exer­ci­ta­mos sem­pre a mente como cri­an­ças. Ima­gi­na­mos, brin­ca­mos ao faz de conta, pen­sa­mos “e se fosse eu ali?”. Será maior a frequên­cia das vezes que nos ima­gi­na­re­mos bom­bei­ros, médi­cos, astro­nau­tas, reis, deu­ses ou pais do que taxi­der­mis­tas, escra­vos, men­di­gos, fun­ci­o­ná­rios públi­cos, jar­di­nei­ros ou lenha­do­res.
Hoje faço o raro exer­cí­cio de me ima­gi­nar edi­tor de jor­nal. Um […]

Das Cidades Portuguesas II — Coimbra

Diria que és um rio pro­mo­vido a cidade, numa espé­cie de sim­bi­ose urbanístico-fluvial como se fos­sem pri­mos que par­ti­lham o san­gue, o ape­lido e nada mais.
És a cidade do meio, a medi­a­dora entre o grande Pai do Norte e a grande Mãe a Sul. Mas todos sabe­mos que, e até geo­gra­fi­ca­mente, estás mais perto do […]

Do fracasso

Ainda bem que falhaste. A sério. Achas mesmo que ias saber lidar com a gló­ria da mesma maneira sábia com que lidas com a der­rota? De que te valia a vitó­ria se a ias des­per­di­çar em cor­te­jos épicos e coroas de lou­ros a encimar-te a cabeça?
Senta-te a um canto. Sozi­nho: só tu é que perdeste, […]

Rule #1

It doesn’t mat­ter Wha­te­ver you think matters-doesn’t. Fol­low this rule, and it will add deca­des to your life. It does not mat­ter if you are late, or early; if you are here, or if you are there; if you said it, or did not say it; if you were cle­ver, or if you were stupid; […]

Das Cidades Portuguesas I — Aveiro

Não és, nunca foste e nunca serás a mais bonita. Falta-te o espaço, falta-te o cen­tro, falta-te a praça grande a fazer-te de cora­ção, falta-te a luz, falta-te a iden­ti­dade: és daque­las cida­des em que se cons­trói tudo por­que não tens nada. Exis­tes vazia, como se nunca nin­guém te habi­tasse, como se em ti apenas […]

Das poesias I

Ape­sar das ruí­nas e da morte,
Onde sem­pre aca­bou cada ilu­são,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exal­ta­ção
E nunca as minhas mãos ficam vazias.”
Sophia de Mello Brey­ner Andre­sen, Poesia (1944)

Das casas para Venda — I

Sabe, nunca nin­guém cá viveu a sério. Houve uma miúda que teve isto alu­gado durante uns meses mas foi embora. Dizia que não lhe com­pen­sava: o que ela que­ria era que lhe des­ces­sem a renda. Ainda vol­tou há pouco tempo, a ver se o tru­que fun­ci­o­nava, mas aca­bou por desis­tir. Tam­bém lhe digo: é natural […]

Das Prisões

Lembra-te da minha pri­são, do lugar vul­gar e sem pare­des onde me man­têm apri­si­o­nado. Não te esque­ças por favor da deco­ra­ção da minha cela, dos car­ros a pas­sar e do cimento já velho, das árvo­res aca­ba­das e dos arbus­tos egoís­tas.
Perguntas-me por­que nunca dela saí e não resisto a sorrir-te: nin­guém está preso por­que quer, muito […]