Nov
18
Não és, nunca foste e nunca serás a mais bonita. Falta-te o espaço, falta-te o centro, falta-te a praça grande a fazer-te de coração, falta-te a luz, falta-te a identidade: és daquelas cidades em que se constrói tudo porque não tens nada. Existes vazia, como se nunca ninguém te habitasse, como se em ti apenas se passasse e nunca se ficasse. Nunca em ti nada é antigo e mesmo o mais antigo parece falso: foi construído, não nasceu ali.
Espraias-te na direcção do Oceano mas recusas-te a chegar a ele, preferes adormecer numa ria que não é ria. E até nisso és falsa! Quem chega a ti vê-te fechada em ti, com uma ponte e um canal por baixo, como uma tentativa de seres um pequeno postal de uma Veneza falhada. Queres esconder o quê? Tens alguma grandeza em ti ou pretendes apenas ocultar que não a tens?
Construam em ti o que quiserem, serás sempre vazia. Todas as casas serão sempre alugadas, nunca ninguém as comprará, nunca ninguém te escolherá para a vida. Construirão em ti castelos com o sal que te extraem mas atirar-to-ão outra vez assim que se fartarem. Em ti os castelos serão sempre uma brincadeira de crianças.
Passa-se por ti, não se fica.
Nov
3
“Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias.”
Sophia de Mello Breyner Andresen, Poesia (1944)
Nov
3
“Sabe, nunca ninguém cá viveu a sério. Houve uma miúda que teve isto alugado durante uns meses mas foi embora. Dizia que não lhe compensava: o que ela queria era que lhe descessem a renda. Ainda voltou há pouco tempo, a ver se o truque funcionava, mas acabou por desistir. Também lhe digo: é natural que não lhe compensasse, já que ela não sabia aproveitar a casa que aqui tinha. Está a ver esta janela? Tem uma das melhores vistas da casa. Sabe o que ela lhe fez? Tapou com um móvel. Dizia que lhe incomodava tanta luz. E quem diz esta janela, diz outras a que ela fez o mesmo. Em algumas meteu uns reposteiros pesados que ás vezes, com esforço, abria para deixar entrar alguma luz mas que no resto do tempo estavam fechadas. Sabe o que valeu? Quando foi embora levou tudo. Tudo, tudo, tudo. Mas o senhorio disse logo que a partir de agora era para vender. Alugar nunca mais! Dá-lhe demasiado trabalho aguentar estas coisas todas. Como é que nunca ninguém a comprou? Olhe, nem sei bem. Primeiro o dono queria vender isto a todo o custo. Depois como ninguém queria comprar, tentou que alugassem mas mesmo assim isto estava sempre vazio. Esteve aí outra moça há muitos anos, mas só esteve um mesito. Nem chegou a assentar. O que é estranho nisto tudo é que é uma casa boa, tem uma vista lindíssima e é espaçosa mas flexível ao mesmo tempo. Veja esta cozinha, que categoria! Grande e equipada, como se quer. E o jardim? Já viu bem isto? Tem aqui espaço para uma piscina, se assim quiser. Para viver aqui em família, é uma maravilha. Tem espaço para a canalha e para um animal que queira. Além do espaço para arrumação. Sinceramente, não percebo. Sei que do lado da rua não tem o melhor aspecto mas bastava terem-se dado ao trabalho de visitar que viam logo que valia a pena. O sotão? Não lhe vou mentir: é o pior da casa. O senhorio guarda lá as tralhas dele e tem aquilo cheio de lixo. Caixas, caixas e mais caixas, todas cheias de pó. Sinceramente nem sei o que tem lá dentro. Acho que são coisas da escola: livros e cadernos e não sei que mais. O senhorio anda há anos para limpar aquilo mas ainda não se decidiu. Outro dia disse-me que ia mandar limpar aquilo. Vamos a ver se é desta…”
Oct
23
Lembra-te da minha prisão, do lugar vulgar e sem paredes onde me mantêm aprisionado. Não te esqueças por favor da decoração da minha cela, dos carros a passar e do cimento já velho, das árvores acabadas e dos arbustos egoístas.
Perguntas-me porque nunca dela saí e não resisto a sorrir-te: ninguém está preso porque quer, muito menos numa prisão como a minha. Não posso simplesmente levantar-me e ir embora, preciso de alguém que me vá buscar, alguém que aguarde por mim à porta.
Estou farto das grilhetas que veludo que me prendem o coração, estou farto das grilhetas de sangue que me prendem as mãos e acima de tudo estou farto de não saber qual é a chave do meu cadeado.
Aproxima-se o dia da minha execução. Ainda não sei como me vão matar: não sei se me cortam a cabeça ou se me enforcam na praça pública, se me arrancam o coração pelas costas ou se me quebram na roda. Por favor, não me executem hoje. Hoje não.
Um dia, daqui a muitos anos, quando a minha liberdade for assinada e eu puder, finalmente, andar livre entre os homens, sempre que passarmos à porta da minha prisão, quero que me apertes a mão com força apenas para me mostrares que te lembras. Eu sei que não esquecerei. Dir-me-ás “eu sei”, baixinho como um segredo só nosso e vou sentir-me verdadeiramente livre. Vou olhar para os carros que ainda lá vão passar, para o cimento velho e para a flora que já deverá estar quase morta. Vou lembrar os anos, olhar os pulsos e o coração, ver as marcas das algemas que nunca sairam: apenas se cortaram as correntes. Posso agora começar a viver? Anda, aperta-me a mão.
“Eu sei.”
Sep
5
Lembro-me. Lembro-me muito bem, aliás. Lembro-me de acordar sem ter muito bem a certeza do que ia fazer, como se fosse desembarcar na Normandia e ter-me esquecido de como disparar uma arma ou nem sequer me lembrar que estávamos em guerra.
Lembro-me de chorar, não sei exactamente porquê. E lembro-me também de parar de chorar no exacto momento em que virei as costas ao presente. “Está tudo bem, a sério.”
Consigo recordar-me vagamente da viagem e das hospedeiras e do almoço de aeroporto. Lembro-me do ar aliviado de todos os que ao embarcar regressavam e lembro-me do meu ar grave de quem ia pela primeira vez.
Lembro-me da camioneta, das pernas apertadas entre malas e cadeiras e do coração apertado entre o nervoso, o medo e a surpresa. Lembro-me do senhor francês, alma caridosa que nos apontou na direcção certa. Obrigado, onde quer que estejas. Lembro-me da infinita conversa da treta, a manter-me de vigília, sempre de olhos postos no horizonte que nunca mais chegava.
Lembro-me de chegar e olhar em volta e achar que a festa tinha terminado. “Só isto?”, pensei. Cheirava a cimento molhado depois da chuva mas sinceramente não me lembro se tinha chovido ou não. Na minha memória, tinha chovido torrencialmente, na realidade, não tenho a certeza.
Viajei no tempo, estava agora na década de 80. Não tocam os Duran Duran na rádio? O Muro ainda lá está, certo? Não percebo nada do que está para aí a dizer, senhor, mas aposto que é muito interessante e eu ganharia alguma coisa em perceber. Ah, sim, temos fome, rapariga. Sim, leva-nos a sítios para comermos. Está tudo fechado. Paciência. As maçãs da tua casa são as melhores do mundo, sim. E tomate diz-se “pomidor”.
Lembro-me do animal que foi o primeiro medo que venci, deixando-me dormir com ele por perto. Não percebo estes lençóis mas agora também não estou interessado em perceber.
Lembro-me de não pensar em mais nada, de ver a porta pintada com uns girassóis e os guarda-vestidos meios desfeitos. Não usam estores, estes desgraçados.
Olha, já é de dia. E que dia horrível. Tudo parece velho e desgastado e, ainda assim, sinto-me em casa. Chegámos tarde, pedimos desculpa, aprendemos as frutas e os vegetais e outras coisas que tais.
E lembro-me de mais pormenores, de detalhes mínimos de máxima insignificância, que vão dos nomes das ruas aos números das portas, do preço do pão aos horários dos eléctricos. Lembro-me, lembro-me muito bem.
Lembro-me de tudo o que deixei. Lembro-me de partir. Lembro-me de estar.
Só não me lembro de ter voltado.
Aug
20
Megas, Johnny, Vanessa e Filipa: “façam o favor de ser felizes”.
O Porto há-de cá estar quando voltarem. Eu sei que sim.
Aug
16
…a caminho de casa.
Jul
18
O meu já citado primo Tozé era o dono do primeiro computador em que mexi. O tal PC-1 da Olivetti foi a máquina em que aprendi as manhas do ofício e, nele, os meus primeiros passos no MS-DOS.
Aprendi com o meu primo toda aquela rotina de
cd ..
cd jogos
dir *.exe
dir /w
Também aprendi com ele todo o conceito de comprimir/descomprimir ficheiros via linha de comandos, claro está. Ainda me lembro do choque que foi quando descobri o WinZip. Mas isso é uma história para outro dia.
Aprendi com ele o meu primeiro atalho. Todos usamos atalhos a partir de um certo nível de proficiência e habituamo-nos a eles. Toda a gente sabe que Ctrl+C (ou Command+C em Mac) copia o que está selecionado e que Ctrl+V (Command+V) cola o que tinhamos copiado. Aprendi no Microsoft Paint aquele que é, ainda hoje, o meu atalho favorito (sim, eu penso nestas coisas): Ctrl+Z (Command+Z), o atalho para voltar atrás uma acção.
Na verdade, o atalho que venho aqui referir não é bem “um atalho” mas sim uma manha resultante de um atalho. Imaginemos então o cenário de querermos criar uma directoria no MS-DOS, por exemplo a directoria “keen” onde vai morar a nossa instalação de Commander Keen in Goodbye Galaxy! que está
na nossa disquete. A sequência seria, partindo da raiz do disco:
cd Jogos
md keen
cd keen
a:
copy * c:
Aparentemente, não há aqui nada de especial e na realidade não há. Contudo, foi em sequências deste estilo que aprendi o meu primeiro grande golpe de proficiência informática. Convenhamos:
md keen
cd keen
são dois comandos que partilham todos excepto 1 caracter. Em MS-DOS, a tecla F3 coloca na linha de comandos o último comando. A ideia de génio, era escrever então:
md keen
c <F3>
“MEU DEUS!” pensei eu quando aprendi a fazer esta pequena manha. Com apenas uma tecla podia poupar dúzias e dúzias de caracteres ao longo da vida! É a primeira lembrança que tenho de usar um atalho em toda a minha vida e ainda hoje uso variações dele.
Hoje, anos depois, continuo maravilhado com os atalhos que nos permitem poupar tempo e teclas. Diria que grande parte do prazer que retiro da utilização de atalhos não vem da poupança de tempo ou teclas, vem do efeito que resulta de uma pequena acção/grande resultado. Isso seria uma questão interessante para se dissertar mas não neste post.
Jul
16
Após ter apresentado hoje o meu projecto de estágio, conclui o curso. Sou, a partir de agora, o Mestre André, Mestre em Engenharia Informática e de Computação pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto.
Kudos para mim!
Onde é que se metem os papeis para a reforma?
Jul
3
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A actividade blogosférica está um pouco parada aqui por estes lados mas este site que encontrei é verdadeiramente bom e valioso. Em poucas palavras é uma colecção de capas de albuns de jazz, em alta resolução. Muito bom.
O link: http://www.gokudo.co.jp/Record/WVocal1/index.htm