Estação dos Combatentes

Category: pt

Das Perguntas Difíceis

- Olhe, desculpe-me: como é que eu chego à Assem­bleia da Repu­blica? Estava vaga­mente per­dido na zona de San­tos. Gosto de Lis­boa mas como não nativo acabo, de vez em quando, por me per­der ou deso­ri­en­tar. Repa­rei, após ter feito a per­gunta, na ban­deira fran­cesa has­te­ada no pri­meiro andar do edi­fí­cio em frente. Tenho uma […]

Das Poesias V — Chico

Tal­vez não fos­ses forte para a feli­ci­dade, nem para o medo. Olha as pes­soas feli­zes: ocultam-se na feli­ci­dade como em casa, erguem muros, fecham as jane­las, o medo é a sua for­ta­leza. O que dis­pu­tam à morte é maior que elas, a morte não lhes basta. Manuel Antó­nio Pina, in “Cui­da­dos Intensivos”

Agá

O H maiús­culo, na sua forma, assemelha-se às duas mar­gens de um rio uni­das por uma ponte. Acho curi­oso obser­var que é por essa mesma letra que começa a pala­vra que designa a arte de cons­truir pon­tes entre o pas­sado e o futuro pas­sando sobre o pre­sente: a His­tó­ria. A poé­tica levar-nos-ia agora a concluir […]

Trinta e sete

Quando eu nasci, o 25 de Abril já era feri­ado. Quando eu nasci não tinha noção do que isso repre­sen­tava ou sequer do que era repre­sen­tar ou sequer do que era um feri­ado. Mas a 25 de Abril de 1985, lá estava eu, de punho erguido, tenho a cer­teza. Por­que era essa a beleza latente […]

Das Poesias IV — Salgueiro Maia

Aquele que na hora da vitó­ria Res­pei­tou o ven­cido Aquele que deu tudo e não pediu a paga Aquele que na hora da ganân­cia Per­deu o ape­tite Aquele que amou os outros e por isso Não cola­bo­rou com a sua igno­rân­cia ou vício Aquele que foi «Fiel à pala­vra dada à ideia tida» Como antes […]

Das Poesias III — Rita and the rifle

Between Rita and my eyes there is a rifle And who­e­ver knows Rita kne­els and prays To the divi­nity in those honey-colored eyes And I kis­sed Rita When she was young And I remem­ber how she appro­a­ched And how my arm cove­red the love­li­est of braids And I remem­ber Rita The way a spar­row remembers […]

Dos becos

Era uma can­ção extre­ma­mente melan­có­lica. Acho que da Glo­ria Este­fan, aquela do “Con Los Años Que Me Que­dan”. E ouvia-se vinda de uma janela algu­res lá em cima. Debaixo do óculo da dis­tân­cia tem­po­ral, já não me lem­bro sequer qual Via ou Vicolo era, como se se tra­tasse de uma memó­ria apa­gada, rou­bada a esta […]

Das Asas

Nem pre­ci­sa­vas de ter expli­cado a foto­gra­fia. Estás coberta, pro­te­gida, a salvo dos fan­tas­mas da las­cí­via do mundo. Sorris ligei­ra­mente, como só a ver­da­deira feli­ci­dade o per­mite (sabes bem que todos os outro sor­ri­sos são for­ça­dos à alma por um corpo obs­ti­nado). Olhas para longe com a dis­pli­cên­cia daque­les a quem o mundo já não chega e só para […]

Das Poesias II — Fado para a Lua de Lisboa

Ó Lua, espe­lho do chão que andas no céu pen­du­rado, holo­fote da ilu­são pelo turismo alu­gado, não ilu­mi­nes em vão os sul­cos do empe­drado! – Denun­cia nas vale­tas as som­bras que tu arras­tas: pros­ti­tu­tas, pro­xe­ne­tas, silhu­e­tas de pede­ras­tas… Colos bran­cos. Ren­das pre­tas. Casas tor­tas. Pedras gas­tas. – As rugas do sobres­salto, Ó Lua não as […]

Sem Título

Exer­ci­ta­mos sem­pre a mente como cri­an­ças. Ima­gi­na­mos, brin­ca­mos ao faz de conta, pen­sa­mos “e se fosse eu ali?”. Será maior a frequên­cia das vezes que nos ima­gi­na­re­mos bom­bei­ros, médi­cos, astro­nau­tas, reis, deu­ses ou pais do que taxi­der­mis­tas, escra­vos, men­di­gos, fun­ci­o­ná­rios públi­cos, jar­di­nei­ros ou lenha­do­res. Hoje faço o raro exer­cí­cio de me ima­gi­nar edi­tor de jornal. […]