Estação dos Combatentes

 

 

 

 

 

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«O nome do meu pai era Clevie Raymond Carver. A sua família chamava-lhe Raymond e os amigos chamavam-lhe C.R. Deram-me o nome de Raymond Clevie Carver Júnior, e sempre odiei a parte do “Júnior”. Quando era pequeno, o meu pai chamava-me Sapo, e disso eu gostava. Mas, mais tarde, como toda a gente na família, [...]

Das Poesias VIII – [NÃO GOSTO DE CONTAR OS DESASTRES EM DETALHE]

Não gosto de contar os desastres em detalhe mas, se quiserem, posso escrever uma lista com nomes e camas. Sou bem capaz de molhar o pezinho na história da barbárie, condecorar o medo, cortar-me a mão com que limpo as feridas de uma civilização em queda. Posso perfeitamente ir afiando o gume da esperança com [...]

Das Poesias VII – II Soneto para Cesário

Se te encontrasse, agora, na paisagem nocturna dos fantasmas da cidade, contava-te dos nossos pobres versos no teu rasto de sombra e claridade Contava-te do frio que há em medir a distância entre as mãos e as estrelas, com lágrimas de pedra nos sapatos e um cansaço impossível de escondê-las Contava-te – sei lá! – [...]

Das Poesias VI – As Coisas do Corpo

Demasiado internas para lhes conhecermos os contornos. Demasiado ocultas para lhes saber as razões. Ostensivas, as coisas do corpo exibem-se perfeitas. Segundos em que cheguei a odiá-las. Estavam demasiado longe dos lugares a que devíamos regressar quando eu envelhecesse. Puxei-te pela mão. A mão soltou-se do teu corpo. Coloquei-a no lugar do coração; com as [...]

Das Perguntas Difíceis

- Olhe, desculpe-me: como é que eu chego à Assembleia da Republica? Estava vagamente perdido na zona de Santos. Gosto de Lisboa mas como não nativo acabo, de vez em quando, por me perder ou desorientar. Reparei, após ter feito a pergunta, na bandeira francesa hasteada no primeiro andar do edifício em frente. Tenho uma [...]

Das Poesias V – Chico

Talvez não fosses forte para a felicidade, nem para o medo. Olha as pessoas felizes: ocultam-se na felicidade como em casa, erguem muros, fecham as janelas, o medo é a sua fortaleza. O que disputam à morte é maior que elas, a morte não lhes basta. Manuel António Pina, in “Cuidados Intensivos”

Agá

O H maiúsculo, na sua forma, assemelha-se às duas margens de um rio unidas por uma ponte. Acho curioso observar que é por essa mesma letra que começa a palavra que designa a arte de construir pontes entre o passado e o futuro passando sobre o presente: a História. A poética levar-nos-ia agora a concluir [...]

Trinta e sete

Quando eu nasci, o 25 de Abril já era feriado. Quando eu nasci não tinha noção do que isso representava ou sequer do que era representar ou sequer do que era um feriado. Mas a 25 de Abril de 1985, lá estava eu, de punho erguido, tenho a certeza. Porque era essa a beleza latente [...]

Das Poesias IV – Salgueiro Maia

Aquele que na hora da vitória Respeitou o vencido Aquele que deu tudo e não pediu a paga Aquele que na hora da ganância Perdeu o apetite Aquele que amou os outros e por isso Não colaborou com a sua ignorância ou vício Aquele que foi «Fiel à palavra dada à ideia tida» Como antes [...]

Das Poesias III – Rita and the rifle

Between Rita and my eyes there is a rifle And whoever knows Rita kneels and prays To the divinity in those honey-colored eyes And I kissed Rita When she was young And I remember how she approached And how my arm covered the loveliest of braids And I remember Rita The way a sparrow remembers [...]