Dos becos

by lamelas

Era uma can­ção extre­ma­mente melan­có­lica. Acho que da Glo­ria Este­fan, aquela do “Con Los Años Que Me Que­dan”. E ouvia-se vinda de uma janela algu­res lá em cima. Debaixo do óculo da dis­tân­cia tem­po­ral, já não me lem­bro sequer qual Via ou Vicolo era, como se se tra­tasse de uma memó­ria apa­gada, rou­bada a esta cidade que sem­pre as soube guar­dar com vigor, nem que delas ape­nas res­tem pedras.

Como sítio, seria decal­cado para um pos­tal hou­vesse um qual­quer fotó­grafo a lá ter pas­sado. Era estreito, não mais do que três metros de lar­gura. Havia um arco, debaixo do qual se pas­sava para seguir em frente ou vol­tar para trás, não esque­cendo nunca que há sem­pre dois sen­ti­dos. Em tudo. As pare­des pin­ta­das daquele laranja bar­rento fil­tra­vam o azul do céu limpo que Feve­reiro ofe­re­cia, reflec­tindo ape­nas uma luz sépia, des­pro­vida de brilho.

Peque­nos vasos meios flo­ri­dos e encos­ta­dos à parede pon­tu­a­vam com verde aquele cená­rio quase desér­tico, ama­re­lado, melancólico.

Várias jane­las, na sua mai­o­ria fecha­das. Sobra­vam a da música e uma ou outra onde se avis­ta­vam cor­ti­nas fugi­ti­vas, dan­çando na ligeira brisa que o Tibre fazia soprar. Três degraus sepa­ra­vam da rua a única porta exis­tente. Sen­tada, julguei-a assus­tada ao ver-me apa­re­cer, com ar de turista, de des­co­bri­dor, de per­dido. Sorriu-me. Pelos olhos diria que tinha cho­rado todas as mágoas do mundo mas que jun­tara em si todas as for­ças que tinha para me ofe­re­cer aquele sor­riso. Havia nele uma implo­ra­ção deses­pe­rada, um cla­mor digno de um mori­bundo supli­cando a extrema-unção para poder ao mundo dizer adeus em paz.

Sentei-me a seu lado e estendi-lhe a mão. Ela apertou-a e vol­tou ao seu choro de puri­fi­ca­ção, de lim­peza, de catarse.

Não sei se seria can­saço, mas as lágri­mas para­ram. Pediu-me des­culpa, agradeceu-me, disse que não sabia o que fazer, agradeceu-me outra vez, pediu-me des­culpa. E falou. Falou inin­ter­rup­ta­mente durante algum tempo.

Falou de um Verão que pas­sa­ram em não sei onde, perto da Sicí­lia, e de algo que ele lhe tinha dito e ela tinha acre­di­tado. Acho que tinha a ver com amor. Falou de um con­certo onde tinham ido e onde tinham os dois cho­rado abra­ça­dos. Contou-me a his­tó­ria de como se tinham conhe­cido e de como ele tinha o cheiro do seu pai (ou de como ela se lem­brava do seu pai ter sido). Con­tou uma qual­quer his­tó­ria que ligava a Via Fla­mi­nia à Piazza della Radio atra­vés de um Lit­tle Yan­kee e explu­sou uma recor­da­ção que envol­via a Fonte de Trevi. Foi reve­lando os pas­sos que a trou­xe­ram até ali, ao beco, pur­ga­tó­rio escon­dido no meio da Cidade Eterna. Havia nela a inqui­e­tude de uma idade adulta não alcan­çada, de um salto falhado em direc­ção ao cres­cer. Con­ti­nuei a dar-lhe a mão e a ouvi-la. Soube-lhe a his­tó­ria, a vida, os sonhos, as ale­grias e as crenças.

Calou-se. Vol­ta­ram as des­cul­pas. Perguntou-me se era mudo. Sorri. Disse-lhe que de mudo não tinha nada, que falava até demais. “Podias ter dito para me calar”.

Levantei-me. Que­ria ter-lhe dito alguma frase digna de Con­fú­cio, um silo­gismo pleno de sabe­do­ria, uma máxima alta­mente citá­vel. Só con­se­gui bal­bu­ciar que não lhe res­tava mais nada na vida senão viver e seguir em frente. “Tens razão”

Acho que ainda a ouvi dizer que se cha­mava Clau­dia mas perdi entre­tanto a con­cen­tra­ção. Outra vez a Glo­ria Estefan.

Alguém ouvia o raio da música e ali, com tudo aquilo, fazia todo o sentido.