Das Asas
by lamelas
Nem precisavas de ter explicado a fotografia.
Estás coberta, protegida, a salvo dos fantasmas da lascívia do mundo. Sorris ligeiramente, como só a verdadeira felicidade o permite (sabes bem que todos os outro sorrisos são forçados à alma por um corpo obstinado). Olhas para longe com a displicência daqueles a quem o mundo já não chega e só para lá do horizonte está o sítio onde se pertence. O enlevo com que repousas lembra-me uma qualquer obra-prima, esboço imperfeito de uma perfeição completa. Sei que te classificarias divina, ousasse algum humano chegar perto de ti a inquirir quem eras. Há uma porta aberta, desfocada, que não capta o nosso olhar porque não queremos sair dali. Há um canto de um mapa que a objectiva cortou, para que fosse uma lembrança indeterminada no espaço.
Dor. Sei que é isso que te resta hoje ao veres esta fotografia. Lembras-me o anjo de Garrett, o das asas brancas, o que as perdeu e nunca mais conseguiu subir ao céu em se cansando do mundo. Amarram-te agora cordas grossas, que roças na pele até fazer ferida quando delas te tentas soltar. Despem-te, puxam-te o cobertor e roubam-te a almofada para os substituírem pelo vento frio de inverno e por uma pedra de arestas pontiagudas. Recusas a que te vejam as feridas, os restos das asas cortadas a sangue frio (haverá anestesia alguma capaz de impedir as mágoas do amor amputado?). Mostro-te as minhas feridas.
Nunca tive asas como as tuas mas cicatrizes não me faltam. Sei que as achas ridículas de tão pequenas mas mostro-te como me doem.
Passam-se os dias e confias em mim. Sangras, limpo-te as feridas; gemes, oiço-te; choras, seco-te as lágrimas. Mostras-me o sangue que escorreu pelo chão áspero da cela em que te prenderam para que eu veja a tua dor maior que o mundo. Mostras-me as penas das asas que te arrancaram, explicas-me o processo da crueldade a que te sujeitaram. Ajudo a transferir-te para outra cela, mais clara. Insistes em levar os restos das asas. Sei que ainda acreditas que as podem reviver, colá-las ao teu dorso e veres-te de novo a voar. Já sei que não servem as asas que te tentam impingir mas não é por mal que o fazem.
Da prisão, nunca te poderei libertar. Só tu por tua força dela poderás fugir. E eu, só com a minha força conseguirei fugir também. As fugas fazem-se sozinhas aqui. Sempre. Podias nunca me ter dito nada que ao mostrares-me a fotografia perceberia tudo: saberia as tuas dores, as tuas mágoas, as tuas histórias, os teus voos. Saberia que, mais do que tudo, precisarias de quem te fizesse aguentar a tua estadia terrena. Serás deusa outra vez, minha querida, acredita em mim.
Mas até lá, esquece-te dos céus e aproveita a Terra.
Para a Sara