Sem Título

by lamelas

Exer­ci­ta­mos sem­pre a mente como cri­an­ças. Ima­gi­na­mos, brin­ca­mos ao faz de conta, pen­sa­mos “e se fosse eu ali?”. Será maior a frequên­cia das vezes que nos ima­gi­na­re­mos bom­bei­ros, médi­cos, astro­nau­tas, reis, deu­ses ou pais do que taxi­der­mis­tas, escra­vos, men­di­gos, fun­ci­o­ná­rios públi­cos, jar­di­nei­ros ou lenha­do­res.
Hoje faço o raro exer­cí­cio de me ima­gi­nar edi­tor de jor­nal. Um jor­nal qual­quer, mas não num dia qual­quer. Não nos ima­gi­na­mos médi­cos a sal­var uma vida qual­quer, imaginamo-nos médi­cos a sal­var uma deter­mi­nada vida. Imagino-me edi­tor de um qual­quer jor­nal há qua­renta anos atrás. A mis­são? Esco­lher um título para a capa, claro. Todos os jor­nais do mundo terão títu­los sobre a Lua, sobre o feito, sobre os homens que pela pri­meira vez lá foram. Hoje, qua­renta anos depois nin­guém se lem­brará das outras notí­cias meno­res que esta­rão tam­bém na capa. Tenho de encon­trar um título. Um bom. Men­tira, um óptimo título. Um que fique, um que seja his­tó­rico como a frase de Neil Arms­trong. Que pode­ria ter dito ao che­gar à Lua a frase de um outro Arms­trong, este de nome Louis, “What a Won­der­ful World”.
Perco horas a ima­gi­nar o título. Já podia ter sal­tado de ideia, já podia ser Arms­trong a ima­gi­nar uma outra frase para ficar na His­tó­ria, ou pode­ria ser Ken­nedy a pro­me­ter a Lua. Não, con­ti­nuo preso ao edi­tor que quer que o mundo lem­bre a capa do seu jor­nal. Escrevem-se os arti­gos, as poe­sias jor­na­lís­ti­cas do dia em que o homem, pela pri­meira vez, cami­nhou fisi­ca­mente na Lua. A reda­ção está ao rubro. Mas espera-se um título, uma frase que não será his­tó­rica mas con­tará a His­tó­ria. “The Eagle has lan­ded” Ocorrem-me metá­fo­ras com pás­sa­ros, com­pa­ra­ções a deu­ses. Arms­trong, Aldrin. Par­ti­lho com eles a pri­meira letra do nome. Aldrin, André, Arms­trong. Pode­ria ter sido eu, não fosse eu um pobre edi­tor de jor­nal.
Vem-me à cabeça um livro infan­til: “Flicts”. O livro conta a his­tó­ria de uma cor que pro­cura o seu lugar no mundo. Ter­mina com Neil Arms­trong a con­fir­mar: “The Moon is Flicts”. Só lá, a cor encon­trou o seu lugar. Não pode­ria ter sido este o meu título, mas era um dos bons: “A Lua é Flicts”.
“Só falta o título, senhor edi­tor”, diz-me um qual­quer per­so­na­gem do meu sonho, despertando-me para a hora da deci­são no meu mundo ima­gi­nado. E deixo para trás as cores, as poe­sias, as auten­ti­ci­da­des jor­na­lís­ti­cas ou as fra­ses his­tó­ri­cas.
Decidi-me por não ter nenhum título, ape­nas uma foto. Na altura não seria pos­sí­vel pois pro­va­vel­mente não che­ga­ria a tempo de ser publi­cada, a tec­no­lo­gia não o per­mi­ti­ria, sei lá: não sou um edi­tor a sério e de jor­na­lismo sei pouco. Fica­ria esta foto ape­nas. Sei bem que o que nos levou lá foi ape­nas a von­tade imensa de nos ver­mos a nós pró­prios. Como quando cap­tu­ra­mos as cores num qua­dro ou escul­pi­mos um poema, como quando ama­mos com o dom da ami­zade ou com o dom do amor, resume-se tudo a expelir-mo-nos para que nos veja­mos em outras for­mas ou nos outros. De fora. Vermo-nos. Da Lua.

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