Das Poesias II — Fado para a Lua de Lisboa

by lamelas

Ó Lua, espe­lho do chão
que andas no céu pen­du­rado,
holo­fote da ilu­são
pelo turismo alu­gado,
não ilu­mi­nes em vão
os sul­cos do empe­drado!

Denun­cia nas vale­tas
as som­bras que tu arras­tas:
pros­ti­tu­tas, pro­xe­ne­tas,
silhu­e­tas de pede­ras­tas…
Colos bran­cos. Ren­das pre­tas.
Casas tor­tas. Pedras gas­tas.

As rugas do sobres­salto,
Ó Lua não as des­truas!
Tu viste car­ros de assalto
ron­da­rem por estas ruas;
viste rola­rem no asfalto
ves­tes mais alvas que as tuas.

Foste a lua a que se expu­nha
aos tiros a mul­ti­dão;
espe­lhaste na tua unha
a secu­lar afli­ção;
e já foste tes­te­mu­nha
dos fogos da Inqui­si­ção.

Pro­cis­sões do Santo Ofí­cio…
Filei­ras de con­de­na­dos…
À noite, nem só o vício
ras­teja por estes lados:
as ser­pen­tes do suplí­cio
sil­vam nos pátios mura­dos…

Ó Lua, guarda o retrato
de tudo, tudo a que assis­tas!
Não quei­ras pas­sar ao lado
da des­graça que visi­tas!
Nem quei­ras ser infa­mado
pas­sa­tempo de turis­tas!

Clo­ro­fór­mio dos enfer­mos,
se foges dos hos­pi­tais,
então recolhe-te aos ermos
deser­tos celes­ti­ais!
E enquanto te não mere­cer­mos
não te acen­das nunca mais!

David Mourão-Ferreira