Do fracasso

by lamelas

Ainda bem que falhaste. A sério. Achas mesmo que ias saber lidar com a gló­ria da mesma maneira sábia com que lidas com a der­rota? De que te valia a vitó­ria se a ias des­per­di­çar em cor­te­jos épicos e coroas de lou­ros a encimar-te a cabeça?
Senta-te a um canto. Sozi­nho: só tu é que per­deste, nunca na der­rota terás alguém con­tigo. Sen­tes o cheiro? Cheira à rigi­dez dos cor­pos páli­dos, sente a cada­ve­rina que se eleva do chão e te embebe a arma­dura. Ou será mor­ta­lha? Ou será pele? Ou será nada?
Por­que olhas o hori­zonte? Ten­tas nele pers­cru­tar alguma nuvem mais densa. Que­rias mesmo que cho­vesse. O mundo não tem de pac­tuar con­tigo na der­rota, sabes disso. Se te tives­sem feito morto ou pri­si­o­neiro ser-te-ia agora indi­fe­rente a chuva que não cai. Pena que os teus car­ras­cos não sai­bam a vitó­ria como tu sabes a der­rota. Olha, outro que dei­xou de gemer. Vês a vida esvair-se de um dos teus mais jovens sol­da­dos. Vês os seus olhos pro­cu­ra­rem a vida den­tro de si. Cru­el­dade tama­nha teres de ver a tua obra-prima sucum­bir em frente dos teus olhos.
Uma lança par­tida, uma espada entor­tada, uma fle­cha cor­tada, uma adaga cra­vada. Uma arma­dura per­fu­rada, uma túnica ras­gada, uma san­dá­lia esque­cida. A relva rubra, o san­gue ene­gre­cido. A vida extinta. A derrota.

- Não vol­tes a pin­tar mais qua­dros des­tes, sim?
– Não vol­tes a derrotar-me desta forma, sim?