Das Cidades Portuguesas I — Aveiro

by lamelas

Não és, nunca foste e nunca serás a mais bonita. Falta-te o espaço, falta-te o cen­tro, falta-te a praça grande a fazer-te de cora­ção, falta-te a luz, falta-te a iden­ti­dade: és daque­las cida­des em que se cons­trói tudo por­que não tens nada. Exis­tes vazia, como se nunca nin­guém te habi­tasse, como se em ti ape­nas se pas­sasse e nunca se ficasse. Nunca em ti nada é antigo e mesmo o mais antigo parece falso: foi cons­truído, não nas­ceu ali.
Espraias-te na direc­ção do Oce­ano mas recusas-te a che­gar a ele, pre­fe­res ador­me­cer numa ria que não é ria. E até nisso és falsa! Quem chega a ti vê-te fechada em ti, com uma ponte e um canal por baixo, como uma ten­ta­tiva de seres um pequeno pos­tal de uma Veneza falhada. Que­res escon­der o quê? Tens alguma gran­deza em ti ou pre­ten­des ape­nas ocul­tar que não a tens?
Cons­truam em ti o que qui­se­rem, serás sem­pre vazia. Todas as casas serão sem­pre alu­ga­das, nunca nin­guém as com­prará, nunca nin­guém te esco­lherá para a vida. Cons­trui­rão em ti cas­te­los com o sal que te extraem mas atirar-to-ão outra vez assim que se far­ta­rem. Em ti os cas­te­los serão sem­pre uma brin­ca­deira de crianças.

Passa-se por ti, não se fica.