Das casas para Venda — I

by lamelas

Sabe, nunca nin­guém cá viveu a sério. Houve uma miúda que teve isto alu­gado durante uns meses mas foi embora. Dizia que não lhe com­pen­sava: o que ela que­ria era que lhe des­ces­sem a renda. Ainda vol­tou há pouco tempo, a ver se o tru­que fun­ci­o­nava, mas aca­bou por desis­tir. Tam­bém lhe digo: é natu­ral que não lhe com­pen­sasse, já que ela não sabia apro­vei­tar a casa que aqui tinha. Está a ver esta janela? Tem uma das melho­res vis­tas da casa. Sabe o que ela lhe fez? Tapou com um móvel. Dizia que lhe inco­mo­dava tanta luz. E quem diz esta janela, diz outras a que ela fez o mesmo. Em algu­mas meteu uns repos­tei­ros pesa­dos que ás vezes, com esforço, abria para dei­xar entrar alguma luz mas que no resto do tempo esta­vam fecha­das. Sabe o que valeu? Quando foi embora levou tudo. Tudo, tudo, tudo. Mas o senho­rio disse logo que a par­tir de agora era para ven­der. Alu­gar nunca mais! Dá-lhe dema­si­ado tra­ba­lho aguen­tar estas coi­sas todas. Como é que nunca nin­guém a com­prou? Olhe, nem sei bem. Pri­meiro o dono que­ria ven­der isto a todo o custo. Depois como nin­guém que­ria com­prar, ten­tou que alu­gas­sem mas mesmo assim isto estava sem­pre vazio. Esteve aí outra moça há mui­tos anos, mas só esteve um mesito. Nem che­gou a assen­tar. O que é estra­nho nisto tudo é que é uma casa boa, tem uma vista lin­dís­sima e é espa­çosa mas fle­xí­vel ao mesmo tempo. Veja esta cozi­nha, que cate­go­ria! Grande e equi­pada, como se quer. E o jar­dim? Já viu bem isto? Tem aqui espaço para uma pis­cina, se assim qui­ser. Para viver aqui em famí­lia, é uma mara­vi­lha. Tem espaço para a cana­lha e para um ani­mal que queira. Além do espaço para arru­ma­ção. Sin­ce­ra­mente, não per­cebo. Sei que do lado da rua não tem o melhor aspecto mas bas­tava terem-se dado ao tra­ba­lho de visi­tar que viam logo que valia a pena. O sotão? Não lhe vou men­tir: é o pior da casa. O senho­rio guarda lá as tra­lhas dele e tem aquilo cheio de lixo. Cai­xas, cai­xas e mais cai­xas, todas cheias de pó. Sin­ce­ra­mente nem sei o que tem lá den­tro. Acho que são coi­sas da escola: livros e cader­nos e não sei que mais. O senho­rio anda há anos para lim­par aquilo mas ainda não se deci­diu. Outro dia disse-me que ia man­dar lim­par aquilo. Vamos a ver se é desta…”