Não és, nunca foste e nunca serás a mais bonita. Falta-te o espaço, falta-te o centro, falta-te a praça grande a fazer-te de coração, falta-te a luz, falta-te a identidade: és daquelas cidades em que se constrói tudo porque não tens nada. Existes vazia, como se nunca ninguém te habitasse, como se em ti apenas se passasse e nunca se ficasse. Nunca em ti nada é antigo e mesmo o mais antigo parece falso: foi construído, não nasceu ali.
Espraias-te na direcção do Oceano mas recusas-te a chegar a ele, preferes adormecer numa ria que não é ria. E até nisso és falsa! Quem chega a ti vê-te fechada em ti, com uma ponte e um canal por baixo, como uma tentativa de seres um pequeno postal de uma Veneza falhada. Queres esconder o quê? Tens alguma grandeza em ti ou pretendes apenas ocultar que não a tens?
Construam em ti o que quiserem, serás sempre vazia. Todas as casas serão sempre alugadas, nunca ninguém as comprará, nunca ninguém te escolherá para a vida. Construirão em ti castelos com o sal que te extraem mas atirar-to-ão outra vez assim que se fartarem. Em ti os castelos serão sempre uma brincadeira de crianças.

Passa-se por ti, não se fica.

“Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias.”

Sophia de Mello Breyner Andresen, Poesia (1944)

“Sabe, nunca ninguém cá viveu a sério. Houve uma miúda que teve isto alugado durante uns meses mas foi embora. Dizia que não lhe compensava: o que ela queria era que lhe descessem a renda. Ainda voltou há pouco tempo, a ver se o truque funcionava, mas acabou por desistir. Também lhe digo: é natural que não lhe compensasse, já que ela não sabia aproveitar a casa que aqui tinha. Está a ver esta janela? Tem uma das melhores vistas da casa. Sabe o que ela lhe fez? Tapou com um móvel. Dizia que lhe incomodava tanta luz. E quem diz esta janela, diz outras a que ela fez o mesmo. Em algumas meteu uns reposteiros pesados que ás vezes, com esforço, abria para deixar entrar alguma luz mas que no resto do tempo estavam fechadas. Sabe o que valeu? Quando foi embora levou tudo. Tudo, tudo, tudo. Mas o senhorio disse logo que a partir de agora era para vender. Alugar nunca mais! Dá-lhe demasiado trabalho aguentar estas coisas todas. Como é que nunca ninguém a comprou? Olhe, nem sei bem. Primeiro o dono queria vender isto a todo o custo. Depois como ninguém queria comprar, tentou que alugassem mas mesmo assim isto estava sempre vazio. Esteve aí outra moça há muitos anos, mas só esteve um mesito. Nem chegou a assentar. O que é estranho nisto tudo é que é uma casa boa, tem uma vista lindíssima e é espaçosa mas flexível ao mesmo tempo. Veja esta cozinha, que categoria! Grande e equipada, como se quer. E o jardim? Já viu bem isto? Tem aqui espaço para uma piscina, se assim quiser. Para viver aqui em família, é uma maravilha. Tem espaço para a canalha e para um animal que queira. Além do espaço para arrumação. Sinceramente, não percebo. Sei que do lado da rua não tem o melhor aspecto mas bastava terem-se dado ao trabalho de visitar que viam logo que valia a pena. O sotão? Não lhe vou mentir: é o pior da casa. O senhorio guarda lá as tralhas dele e tem aquilo cheio de lixo. Caixas, caixas e mais caixas, todas cheias de pó. Sinceramente nem sei o que tem lá dentro. Acho que são coisas da escola: livros e cadernos e não sei que mais. O senhorio anda há anos para limpar aquilo mas ainda não se decidiu. Outro dia disse-me que ia mandar limpar aquilo. Vamos a ver se é desta…”