Das Prisões

by lamelas

Lembra-te da minha pri­são, do lugar vul­gar e sem pare­des onde me man­têm apri­si­o­nado. Não te esque­ças por favor da deco­ra­ção da minha cela, dos car­ros a pas­sar e do cimento já velho, das árvo­res aca­ba­das e dos arbus­tos egoístas.

Perguntas-me por­que nunca dela saí e não resisto a sorrir-te: nin­guém está preso por­que quer, muito menos numa pri­são como a minha. Não posso sim­ples­mente levantar-me e ir embora, pre­ciso de alguém que me vá bus­car, alguém que aguarde por mim à porta.

Estou farto das gri­lhe­tas que veludo que me pren­dem o cora­ção, estou farto das gri­lhe­tas de san­gue que me pren­dem as mãos e acima de tudo estou farto de não saber qual é a chave do meu cade­ado.
Aproxima-se o dia da minha exe­cu­ção. Ainda não sei como me vão matar: não sei se me cor­tam a cabeça ou se me enfor­cam na praça pública, se me arran­cam o cora­ção pelas cos­tas ou se me que­bram na roda. Por favor, não me exe­cu­tem hoje. Hoje não.

Um dia, daqui a mui­tos anos, quando a minha liber­dade for assi­nada e eu puder, final­mente, andar livre entre os homens, sem­pre que pas­sar­mos à porta da minha pri­são, quero que me aper­tes a mão com força ape­nas para me mos­tra­res que te lem­bras. Eu sei que não esque­ce­rei. Dir-me-ás “eu sei”, bai­xi­nho como um segredo só nosso e vou sentir-me ver­da­dei­ra­mente livre. Vou olhar para os car­ros que ainda lá vão pas­sar, para o cimento velho e para a flora que já deverá estar quase morta. Vou lem­brar os anos, olhar os pul­sos e o cora­ção, ver as mar­cas das alge­mas que nunca sai­ram: ape­nas se cor­ta­ram as cor­ren­tes. Posso agora come­çar a viver? Anda, aperta-me a mão.

Eu sei.”