Oct
23
Lembra-te da minha prisão, do lugar vulgar e sem paredes onde me mantêm aprisionado. Não te esqueças por favor da decoração da minha cela, dos carros a passar e do cimento já velho, das árvores acabadas e dos arbustos egoístas.
Perguntas-me porque nunca dela saí e não resisto a sorrir-te: ninguém está preso porque quer, muito menos numa prisão como a minha. Não posso simplesmente levantar-me e ir embora, preciso de alguém que me vá buscar, alguém que aguarde por mim à porta.
Estou farto das grilhetas que veludo que me prendem o coração, estou farto das grilhetas de sangue que me prendem as mãos e acima de tudo estou farto de não saber qual é a chave do meu cadeado.
Aproxima-se o dia da minha execução. Ainda não sei como me vão matar: não sei se me cortam a cabeça ou se me enforcam na praça pública, se me arrancam o coração pelas costas ou se me quebram na roda. Por favor, não me executem hoje. Hoje não.
Um dia, daqui a muitos anos, quando a minha liberdade for assinada e eu puder, finalmente, andar livre entre os homens, sempre que passarmos à porta da minha prisão, quero que me apertes a mão com força apenas para me mostrares que te lembras. Eu sei que não esquecerei. Dir-me-ás “eu sei”, baixinho como um segredo só nosso e vou sentir-me verdadeiramente livre. Vou olhar para os carros que ainda lá vão passar, para o cimento velho e para a flora que já deverá estar quase morta. Vou lembrar os anos, olhar os pulsos e o coração, ver as marcas das algemas que nunca sairam: apenas se cortaram as correntes. Posso agora começar a viver? Anda, aperta-me a mão.
“Eu sei.”
Add New Comment
Viewing 2 Comments
Thanks. Your comment is awaiting approval by a moderator.
Do you already have an account? Log in and claim this comment.
Do you already have an account? Log in and claim this comment.
Do you already have an account? Log in and claim this comment.
Add New Comment