Sep
5
Lembro-me. Lembro-me muito bem, aliás. Lembro-me de acordar sem ter muito bem a certeza do que ia fazer, como se fosse desembarcar na Normandia e ter-me esquecido de como disparar uma arma ou nem sequer me lembrar que estávamos em guerra.
Lembro-me de chorar, não sei exactamente porquê. E lembro-me também de parar de chorar no exacto momento em que virei as costas ao presente. “Está tudo bem, a sério.”
Consigo recordar-me vagamente da viagem e das hospedeiras e do almoço de aeroporto. Lembro-me do ar aliviado de todos os que ao embarcar regressavam e lembro-me do meu ar grave de quem ia pela primeira vez.
Lembro-me da camioneta, das pernas apertadas entre malas e cadeiras e do coração apertado entre o nervoso, o medo e a surpresa. Lembro-me do senhor francês, alma caridosa que nos apontou na direcção certa. Obrigado, onde quer que estejas. Lembro-me da infinita conversa da treta, a manter-me de vigília, sempre de olhos postos no horizonte que nunca mais chegava.
Lembro-me de chegar e olhar em volta e achar que a festa tinha terminado. “Só isto?”, pensei. Cheirava a cimento molhado depois da chuva mas sinceramente não me lembro se tinha chovido ou não. Na minha memória, tinha chovido torrencialmente, na realidade, não tenho a certeza.
Viajei no tempo, estava agora na década de 80. Não tocam os Duran Duran na rádio? O Muro ainda lá está, certo? Não percebo nada do que está para aí a dizer, senhor, mas aposto que é muito interessante e eu ganharia alguma coisa em perceber. Ah, sim, temos fome, rapariga. Sim, leva-nos a sítios para comermos. Está tudo fechado. Paciência. As maçãs da tua casa são as melhores do mundo, sim. E tomate diz-se “pomidor”.
Lembro-me do animal que foi o primeiro medo que venci, deixando-me dormir com ele por perto. Não percebo estes lençóis mas agora também não estou interessado em perceber.
Lembro-me de não pensar em mais nada, de ver a porta pintada com uns girassóis e os guarda-vestidos meios desfeitos. Não usam estores, estes desgraçados.
Olha, já é de dia. E que dia horrível. Tudo parece velho e desgastado e, ainda assim, sinto-me em casa. Chegámos tarde, pedimos desculpa, aprendemos as frutas e os vegetais e outras coisas que tais.
E lembro-me de mais pormenores, de detalhes mínimos de máxima insignificância, que vão dos nomes das ruas aos números das portas, do preço do pão aos horários dos eléctricos. Lembro-me, lembro-me muito bem.
Lembro-me de tudo o que deixei. Lembro-me de partir. Lembro-me de estar.
Só não me lembro de ter voltado.
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