Reticências.
by lamelas
Depois do post de ontem reflecti bastante sobre a questão da interrupção voluntária da gravidez. Conheço os argumentos dos dois lados há anos e anos mas na verdade acho que nunca os ponderei com seriedade.
O último referendo do aborto foi em 1998. Deduzo que tenha sido por essa altura que decidi que era interessante estar do lado do “Não”. Em 1998 tinha 13 anos. Aos 13 anos não tinha sequer noção da complexidade da questão, quanto mais capacidade para acreditar no que quer que fosse. Mantive-me do lado do não desde esse dia. Defendi mais ou menos como pude, com mais ou menos vontade e mais ou menos crença que a lei podia continuar com está. Entretanto desenvolvi-me politicamente mas a questão do aborto continuou por ali, pelo lado do não.
Não nego que foram várias as vezes em que tive vergonha de dizer que era do não. Facilmente me confundiam com os beatos da igreja ou com os conservadores idiotas de direita. Mas sempre achei que era tarde demais para mudar e voltar com a minha palavra atrás parecia-me ridículo.
Foi então hoje, dia 11 de Fevereiro de 2007, o dia em que já toda a gente devia saber o que pensava, que eu decidi perguntar-me a mim próprio em que é que acreditava. O voto branco, como dizia o Armando no comentário ao meu post anterior, é um gesto triste e anti democrático. Principalmente por esta ser uma questão tão transversal à sociedade e em que a visão partidária das coisas está arredada para o canto.
Pensei muito. Olhei para dentro, para mim, para aquele sítio onde temos guardada a nossa sabedoria, aquilo que sabemos e aquilo em acreditamos. Imagino-o como uma espécie de edifício administrativo, muito à Hollywood, com corredores intermináveis cheios de portas, cada qual com uma legenda: “Posição Religiosa”, “Posição Clubística”, “Posição sobre o Aborto”. Percorri então os longos corredores até chegar à porta que me interessava: “Posição sobre o Aborto”. Entrei. Lá dentro a sala parecia ter estado ao abandono durante anos e anos. Pó, muito pó. No chão, perto da entrada, dois montes de folhetos recentes eram os únicos objectos que não pareciam ser da altura do primeiro referendo. O funcionário que lá estava, assustado por me ver a recorrer a ele numa altura tão tardia, pergunta-me “Que fazes aqui? Não és do não há anos e anos?”. Respondi-lhe que sim, que era do não, mas que sinceramente já não o visitava há tantos tantos anos (se calhar só o visitei uma vez) que já nem sabia bem o que afinal eu pensava. Inquiri-o “Diga-me lá então em que é que eu acredito na questão do aborto. Vivi todos estes anos a acreditar que era do não mas já não vinha cá há tanto tempo que já nem sei se ainda é verdade. A minha mais profunda sabedoria que tem para me dizer?”
Nunca ninguém poderá provar em que é que eu votei mas isso é parte da beleza da democracia: diz respeito a cada um de nós e com as nossas convicções mais profundas. Dentro do nosso edifício administrativo está lá algures um quartinho onde um senhor funcionário guarda a nossa posição sobre o aborto. Se calhar um dos grandes problemas da humanidade é que raramente consultamos esses senhores, preferimos ficar pela senhora da entrada, a que tem uma lista com aquilo que lhe foi comunicado, nem que tenha sido há 9 anos atrás.
Saí do edifício em passo apressado não sem antes deixar uma nota na funcionária da entrada para ela alterar a lista para voltar a corresponder à verdade. E claro, pedi ás senhoras da limpeza que fossem limpar a sala da minha opinião sobre o aborto.
Votei em consciência. Aliás, poucas vezes terei feito algo de tão consciente na vida. Custou-me pontapear o orgulho e dar o dito por não dito, ao fim de todos estes anos? Não custou. Porque no fim de contas, votei naquilo em que acredito.
Votei Sim.