O Amor segundo Sam the Kid

by lamelas

Sam the Kid faz hip-hop, rap, wha­te­ver you want to call it. Con­tudo isso não é for­ço­sa­mente mau. No seu último album, escon­dida entre a revolta con­tra os que can­tam em inglês,  pode­mos encon­trar um belís­simo dia­mante (de san­gue, não como o filme mas daque­les que se fazem com o san­gue de toda uma vida) cha­mado “Sli­des (Retra­tos da Cidade Branca)” (um bem haja à Cachu­cha pela suges­tão).  Vale­ria cer­ta­mente debruçarmo-nos sobre ela. Ouvi-la mui­tas vezes, beber-lhe cada pala­vra, cada sílaba como uma lição pre­ci­osa sobre o pas­sado que não volta, sobre as vul­ga­ri­da­des que pre­en­chem a vida e  que, no fundo, são aquilo que mais recor­da­mos aquando do seu ocaso.
Mas Sam the Kid já con­se­guira ser mais melan­có­lico e ainda mais imenso. Em 2002, com “Beats Volume 1 — Amor”, Sam con­quista o seu lugar na minha aten­ção. Para alguém que, como eu sem­pre odiou o hip-hop e tudo o que vinha daque­las zonas, foi um rude golpe ter de dar a mão à pal­ma­tó­ria e admi­tir a pai­xão imensa por tão belo album.
O Amor segundo Sam the Kid, em bati­das, 17 fai­xas dedi­ca­das aos seus pro­ge­ni­to­res a repre­sen­tar a sua visão sobre mais impor­tante his­tó­ria de amor da vida de qual­quer um de nós: a dos nos­sos pais. Mas Beats soa a mais do que isso. Ima­gi­ne­mos a con­cep­ção mais este­ro­ti­pada do hip-hop. Bair­ros subur­ba­nos, cai­xo­tes ao alto a que alguns cha­mam de “casa”, cin­zento, pare­des pin­ta­das de gra­fit­tis, gente sim­ples, com sonhos, com neces­si­da­des como qual­quer um de nós. E é para o meio de todo esse mundo que este album nos trans­porta. Não soa ao amor heróico do cava­leiro que der­rota mons­tros mito­ló­gi­cos com a sua espada para sal­var a prin­cesa, não soa ao amor daque­les que um dia cho­ca­ram um con­tra o outro na rua e nunca mais se lar­ga­ram. Soa ao amor do rapa­zi­nho que inter­rompe o fute­bol dos inter­va­los do recreio para ir dar um beijo à miuda que surge nas ban­ca­das, soa ao mesmo casa­li­nho que vai para o par­que namo­rar quando ainda mal sabem quem são, soa aos bilhe­ti­nhos nas aulas, à ino­cên­cia de tudo isso, à des­co­berta da ado­les­cên­cia. No fundo, soa ao amor mais vul­gar do mundo, ao amor mais comum e mais inca­rac­te­rís­tico de todos, ao amor que podia ser o de qual­quer um de nós. Tal­vez por isso este album valha tanto a pena. Por­que no fim de con­tas, de que nos serve o amor do herói e da sua espada e do seu cavalo quando tudo o que somos é um miudo na fila do fundo, a mirar a rapa­riga da pri­meira fila e a enviar-lhe um bilhete com dois qua­dra­di­nhos: um para o sim, outro para o não. O que muda é ape­nas o bilhete.