As razões do meu não
by lamelas
Escrever sobre o referendo já no próprio dia é crime? Bah. Ninguém me virá processar, espero eu.
Sou do não como o disse no post anterior. Sou do não já há muitos anos e defendo o não dentro de uns argumentos mais ou menos lógicos, com os quais concordo mais ou menos. Confesso que nunca perdi grande tempo a reconsiderar a minha posição mais por teimosia do que por outra coisa. Só os burros é que não mudam de ideias, é verdade, mas de um momento para o outro dizer que agora já sou do sim, iria parecer coisa de pessoa sem personalidade e todos nós sabemos como isso é algo tão imensamente inaceitável para a sociedade de hoje.
No fundo, sou do não mais para mostrar que afinal não mudo de opinião com o sabor do vento do que propriamente por ser aquilo em que acredito.
Vou votar em branco amanhã (já hoje…). Não votaria sim de consciência tranquila mas também não votaria não porque um dia podia arrepender-me por afinal não corresponder àquilo em que penso.
Voto em branco mas vou votar porque acima de tudo acredito na democracia e na minha participação como importante. Uma vez que o sim deve ganhar, evitaremos referendos sobre este assunto para o próximo milénio e, como tal, será assunto que deixará de me preocupar.
“Qual é a tua posição sobre o aborto, André?” perguntar-me-ão de segunda feira em diante. Responderei sempre “Não tenho e mesmo que a tivessee, o único dia em que essa opinião podia ter feito diferença, já foi e não volta.”
A minha consciência diz-me uma coisa, a minha razão diz-me outra, a minha lógica diz-me outra. Com tanta confusão e sem tempo para ter a certeza naquilo que acredito, voto em branco.
Mas voto.
ainda hoje dizia à sónia, poucos minutos antes de entrarmos na secção de voto, que em termos matemáticos me interessa muito mais que se vote em branco em detrimento do voto no não.
mas penso que votar em branco é rejeitar tomar partido de um assunto sem partidos. creio que o referendo é o melhor exemplo de participação democrática na vida politica, social e cultural de um país. é talvez a única forma clara de soberania do povo, aquela em que os poderes tripartidos deixam de o ser, para serem colocados de forma unificada na mão do cidadão.
decides votar em branco, também é participar. mas se dizes que és do não, devias votar no não. se sentes que afinal és do sim, dá um pontapé no preconceito e no orgulho e vota no sim. é uma decisão que está nas mão de toda a gente, porque se todos decidirmos fazer o que estás a fazer, estaremos a cuspir naquilo porque tantos seres se debateram ao longo de séculos.
e aqui o voto em branco não é uma forma de opinião politica, em que demonstramos desagrado pelas atitudes partidárias ou pessoais de uma determinada instituição ou individuo. aqui, votar em branco é sinónimo de despreocupação, abstração e até mesmo individualização de uma questão importante.
espreo ainda ir a tempo, amigo lamelas.
abraço.
ainda foste, armando, ainda foste.