Ainda há Pastores?
by lamelas
O documentário como género cinematográfico pretende mostrar a realidade, sem encenações ou cenários. Pretende documentar (passo o pleonasmo) a realidade, apesar de o ponto de vista dessa mesma realidade estar condicionado pelo homem por detrás da câmara. Mas essa é uma das características fulcrais da realidade: depende de quem a vê, não existe uma realidade única.
Em “Ainda há Pastores?”, documentário de produção nacional realizado por Jorge Pelicano, contam-se as estórias de Casais de Folgosinho, localidade perdida num dos vales mais remotos da Serra da Estrela, local onde ainda existem pastores. O filme centra-se essencialmente na história de Hermínio, o mais novo dos pastores ainda em actividade, de 27 anos. Hermínio percorre a serra com as ovelhas e os seus cães mas sempre de rádio na mão onde nunca faltam as músicas de Quim Barreiros. Há ainda a história de uma senhora (cujo nome me falha agora) e que com os seus 82 anos ainda corre (sim, corre) pela serra a pastar as suas três cabras, vivendo isolada do mundo e resistindo ao apelo dos filhos para que se juntem a eles na cidade. A Rosa de “Rosa Brava”, reportagem da SIC sobre a menina que os pais retiraram da escola para que esta ficasse retida em casa para os ajudar nas actividades do campo, foi revelada por este documentário e dá origem a alguns dos mais belos planos de “Ainda há Pastores?”.
“Ainda há Pastores?” é, e diga-se com a franqueza merecida, um filme belíssimo. Um filme de planos longos, de cores profundas, de campos a perder de vista cuja calma é apenas perturbada pelo passar dos pastores. “Ainda há Pastores?” conta histórias de pessoas, como quaisquer outras, que nunca sairam daquele vale e que ali vivem desde tempos imemorais mas são pessoas como nós, com sonhos, esperanças, necessidades e imaginação. Há ao longo de todo o filme, e em todas as pessoas que nele são mostradas, uma honestidade desarmante e que numa sociedade moderna como a nossa é quase impensável de existir. Pessoas que vivem quase sem nada, no fim do mundo, sozinhos e longe de toda a sociedade de informação, dos blogs e das wikipedias. Pessoas felizes, talvez. Pessoas habituadas a viver com o pouco que têm e com os hábitos que o tempo lhes gravou na pele. A beleza do filme vai além das paisagens e das pessoas e vai até ao seu valor como documento de uma realidade prestes a desaparecer e que nos liga ao nosso passado como humanidade.
Mas no fim, mais do que tudo, há uma questão que me assola e me transporta para fora da Sala Bebé do Cinema Batalha: pessoas que vivem com quase nada e ainda assim parecem felizes, serão de uma pobreza extrema ou de uma riqueza imensa?
Mais informações sobre o filme em http://aindahapastores.blogspot.com