Sevilha, 21 de Maio de 2003

by lamelas

Eu estive lá. Assisti, debaixo de uns 38ºC, ao fan­tás­tico FC Porto-3 Celtic-2 que nos deu a nossa pri­meira taça UEFA. Foi um jogo sofrido. Cho­rei que nem uma mada­lena arre­pen­dida. Mas estive lá, foda-se.
Hoje n’O Dra­gão vinham a refe­ren­ciar cró­nica de Cris­ti­ano Pereira, jor­na­lista do JN, sobre a mítica final de Sevi­lha.
Nunca fui muito bom com as pala­vras por isso deixo-vos com essa mesma cró­nica, como maneira de ten­tar trans­mi­tir o que lá se viveu. Ten­tar ape­nas. Por­que a rea­li­dade é muito mais densa e não cabe em palavras.

CRÓNICA DE UM DRAGÃO

O meu dia 21

6 da manhã, Alfama, Lis­boa — Acordo, isto é, salto da cama (mal fechei os olhos com a ansi­e­dade), tomo um duche, enrolo o cache­col e saio à rua.. Está sol. E sinto uma feli­ci­dade rara, um fura­cão de con­ten­ta­mento de quem ainda se está a aper­ce­ber que afi­nal, foda-se, afi­nal vou. Afi­nal vou à final. E vou mesmo. Há 12 horas atrás cho­rava de frus­tra­ção e agora quase de emo­ção. Já estou a ir. Cara­lho. As ruas pare­cem boni­tas, o pla­neta é belo. Desco a Santa Apo­ló­nia rumo à esta­ção do Ori­ente onde fiquei de me encon­trar com 4 ami­gos que esta­vam a che­gar do Porto. As pes­soas que se cru­zam comigo(e com o azul que me abraça o tronco) lançam-me lumi­no­sos sor­ri­sos, erguem o pole­gar e não raras vezes voci­fe­ram “Boa sorte” ou “hoje somos todos da mesma cor”. Há car­ros que apitam.

7 horas, Lis­boa — Frente ao Vasco da Gama, vis­lum­bro o carro dos meus ami­gos. Um deles tem o cabelo pin­tado de azul e metade do corpo fora da janela. É o Giró, figura incon­tor­ná­vel do punk rock tri­peiro (foi bate­rista dos Rene­ga­dos de Boli­queime). Ele grita. O carro apita. São sete da manhã e estes gajos che­gam beba­dos a Lis­boa. Menos o con­du­tor, claro. Siga para Anda­lu­zia, a duzen­tos à hora, num Audi xpto turbo qual­quer coisa e a ouvir o disco dos Dr. Fran­kens­tein. Meio dia, Sevilha

- Escu­sado será dizer que o rapaz do cabelo azul ater­rou a meio do Alen­tejo. Já acor­dou. Esta­mos em Sevi­lha. Foda-se. Já vemo o está­dio ali à frente. E só dá gajos ves­ti­dos de verde. Pare­cem lagar­tos. Esta­ci­o­na­mos o carro. Está um calor filho da puta. E bota filho da puta nisso: estão 41 graus. No iní­cio acha­mos piada à tem­pe­ra­tura. Esta­mos todos de tronco nu e deci­di­mos ir até ao cen­tro da cidade. Esta­mos desi­dra­ta­dos. Um calor filho da puta.

15 horas — As prin­ci­pais arté­rias do cen­tro da cidade estão cor­ta­das ao trân­sito. As ruas estão api­nha­das de gente ves­tida de verde. É impres­si­o­nante a quan­ti­dade de esco­ce­ses que aqui estão. Diz-se que são mais de cem mil. Não sei. Mas são mais do que as mães. Penso: Glas­gow deve estar deserta. O calor parece aumen­tar até se tor­nar insu­por­tá­vel. Bebe-se muito. Há esco­ce­ses que nos abra­çam. Faze­mos brin­des. Pagam-me copos. Can­tam. A polí­cia observa. E já há cen­te­nas de gajos lite­ra­mente ater­ra­dos no pas­seio. Depois de não sei quan­tas cer­ve­jas apa­rece, caído do céu, um ver­de­jante legume. É erva. E não é uma erva qual­quer. É skunk. Enrolo o charro enquanto um grupo de esco­ce­ses tece ras­ga­dos elo­gios ao Cadete. Acendo o charro e penso que, para mim, o Cadete mais não é do que um joga­dor medío­cre e um cromo do Big Brother. O charro começa a bater.. E de que maneira. Filho da puta de calor.

16 horas — Esta­mos todos meio deso­ri­en­ta­dos. É impos­sí­vel andar mais de 50 metros debaixo deste sol sem parar para beber mais uma cer­veja. Começo a sentir-me total­mente alte­rado pela mis­tura de adi­ti­vos e pela ansi­e­dade tre­pi­dante. Sou assal­tado por uma luci­dez que me faz pen­sar: “Foda-se, não bebas mais. Não entres no está­dio ainda mais bebado. Ainda ater­ras e não vês o jogo”. Há que ir para o está­dio. Ainda fica longe. Não há táxis. Os auto­car­ros estão cheios. Vamos indo a pé. Filho da puta de calor. Mila­gre: um dos auto­car­ros abre-nos a porta. Está cheio como um ovo de esco­ce­ses que ber­ram e muito, eles can­tam, e muito. Ficam todos con­ten­tes por par­ti­lhar­mos o mesmo Bus. Somos os únicos por­tu­gue­ses den­tro do auto­carro. Eles recebem-nos com cum­pri­men­tos e can­tam. Estão sem­pre a can­tar, estes gajos. Filho da puta de calor.

17,30 horas — Che­ga­mos ao está­dio. É pre­ciso ter cui­dado com o bilhete. Anda aí gente capaz de matar só para rou­bar o ape­te­cido rec­tân­gulo de papel. O meu está guar­dado den­tro da sapa­ti­lha, envol­vido em plás­tico. Entro no está­dio. Nem sequer me revis­tam. Subo ao meu lugar,. Estou na ban­cada cen­tral, “Grada Alta, Puerta P, Sec­tor 201 B, Fila 20, Asi­ento 25″. Sento-me. Agora sim. Penso: foda-se, estou mesmo aqui. Fico durante minu­tos calado a sabo­rear essa cons­ta­ta­ção. A rea­li­dade. Este lugar é exce­lente. Está mesmo a meio do rel­vado, uns metros acima do banco do Cel­tic. À minha volta por­tu­gue­ses misturam-se com esco­ce­ses. Até o verde do rel­vado parece adqui­rir uma luz espe­cial. Um calor filho da puta.

18,20 — Ao meu lado está um puto cas­tiço. Fala­mos da ansi­e­dade e do deses­pero. Há logo uma sin­to­nia incrí­vel, uma ine­gá­vel com­pre­en­são mútua. Ele, tal como eu, tinha arran­jado bilhete pou­cas horas antes. Um calor filho da puta. Digo-lhe que vou ao bar com­prar gar­ra­fas de água. Desco a ban­cada. Azar nítido: está uma fila inter­mi­ná­vel para o bar. Fico parvo a olhar para aquilo. Penso num esquema. Chego junto de um enfer­meiro da “Cruz Roja” e peço-lhe água com açú­car. Ele leva-me ao gabi­nete médico, uma sala com ar con­di­ci­o­nado repleta de esco­ce­ses que dor­mem que nem por­cos der­ro­ta­dos pela coma alco­o­lica. “Pois”, digo eu ao médico sim­pá­tico, “não dormi nada com a ansi­e­dade e alimentei-me mal. Este calor tam­bém não ajuda. Fiquei fraco”, dra­ma­tizo, exa­gero, enfim, um tea­tro do cara­lho aju­dad pela pedrada da erva. Ao médico não lhe passa pela cabeça que eu ape­nas ali estou para evi­tar a fila do bar. Dá-me um sumo ener­gé­tico. Fico lá durante uns 10 minu­tos a cur­tir o ar con­di­ci­o­nado. O gajo aponta o meu nome num papel. Saio e trago outro sumo para o puto que me espera na ban­cada. Passo pela fila do bar e vejo que ainda está maior. E que não anda nem desanda. Feito esperto, rio-me para den­tro com um ine­vi­tá­vel e muy tri­peiro pen­sa­mento: “vocês são mesmo mor­cões, cara­lho”. Já não há ar con­di­ci­o­nado. E, claro, está um calor filho da puta.

19 horas — A curva à minha direita está cheia. De azul. De vida. De beleza. Os por­tu­gue­ses entra­ram mais cedo no está­dio. Canta-se muito. Eu tam­bém canto. Está um calor filho da puta. Entre­tanto, a pri­meira má cena do dia: os joga­do­res, lá em baixo, no rel­vado, a aque­cer e, foda-se não estou a ver nenhum cara­lho de cabe­los cla­ros, o pânico e a dúvida apoderam-se de mim e berro: “CARALHO! ONDE ESTÁ O JANKAUSKAS?”. Não está. O que está é o calor. E um calor filho da puta.

19,15 horas — Len­ta­mente, a bebe­deira vai desa­pa­re­cendo e os efei­tos da erva vão, claro, esmo­re­cendo. Só o calor é que parece aumen­tar. E o ner­vo­sismo, claro. O está­dio já está cheio. Olho para as ban­ca­das e fico assus­tado com a quan­ti­dade de verde que vejo. Os gajos come­çam a fazer muito baru­lho. Foda-se. Só can­tam. Umas atrás das outras. Um reper­tó­rio maior do que o Frank Zappa. Esta merda vai come­çar e tenho que me acalmar.

19,45 — Começa o jogo. Con­fu­são do cara­lho. Nin­guém domina nin­guém. Está tudo ner­voso. Com medo. Olha, o Cos­ti­nha foi ao chão. Cara­lho. Filho da puta. Não era ele que dizia que tinha recu­pe­rado da lesão? Foda-se, já fica­mos sem o Cos­ti­nha. Cara­lho. Não estou a gos­tar disto. (não olhei mais para as horas, só para o horá­rio do jogo)

20,30 (mais ou menos) — O Porto sobe, Deco levanta a puta da bola, Ale­nit­chev está lá, eu levanto-me, vejo o gajo a rema­tar de pri­meira, uma bomba autên­tica, o cabrão do Cel­tic não com­pleta a defesa, e cara­lho, foda-se!!! Está ali o Der­lei, foda-se, cara­lho AS REDES ABANAM E É GOLO CARALHO! Bem, aqui eu não sei bem, acho que mando um salto, desco uns sete ou oito pisos da ban­cada e atro­pelo tudo à minha frente, desde esco­ce­ses a por­tu­gue­ses, pas­sando por gar­ra­fas de água e sei lá que mais. Estou fora de mim. Acho que nem grito “golo” por­que a eufo­ria me corta a capa­ci­dade de arti­cu­lar síla­bas. Só berro qual­quer coisa. Já estou como o outro: não há orgasmo que se com­pare a isto. inter­valo. Tento acalmar-me. Vou bus­car mais água. Não há fila. É estra­nho. Porquê? Que cena do cara­lho: aca­ba­ram as bebi­das. Foda-se. Nos dois únicos bares de uma ban­cada cheia debaixo de 38 graus e não há agua, sumo ou a puta que os pariu? A espa­nhola giraça que está no bar depara-se com cen­te­nas de gajos deses­pe­ra­dos e desi­dra­ta­dos. Começa a dis­tri­buir cubos de gelo a toda a gente e a pedir calma. Num acto de deses­pero apa­nho umas gar­ra­fas vazias do chão e vou à casa de banho, tor­neira aberta, encho as gar­ra­fas e ainda molho o meu corpo todo. Começo a aperceber-me que a minha gar­ganta está esqui­sita, isto é, a minha voz, caput, foi com o cara­lho. Segunda parte. Os gajos mar­cam o golo. Foda-se. Um baru­lho des­co­mu­nal. Nunca (ou)vi nada assim. É impres­si­o­nante. Chega a ser assus­ta­dor. Fico na merda. Novo golo do Porto. Foda-se. Agora já nao atro­pe­lei nin­guem, abracei-me ao puto, cara­lho, vamos lá ganhar esta merda. “Vamos ganhar 3–1, vocês vão ver”, diz-me um tri­peiro mais velho. E volta a dizer o mesmo. Outra vez. E mais uma vez. E pimba!, os gajos empa­tam nova­mente, eh pá, puta que pariu, como é que dei­xam aquele cabrão ali sózi­nho na area, cara­lho? Olho para o tri­peiro pro­feta com aquela cara de quem diz “devias ter estado calado meu ganda boi de merda”. Os esco­ce­ses fazem outra vez um baru­lho ensur­de­ce­dor. O está­dio até parece tre­mer. Os que estão atrás de mim berram-me ao ouvido. Há um deles que chega a pôr a mão na minha cabeça e despenteia-me todo. Eu estou fodido, claro, mas tenho fair play, nem olho para trás, o gajo está na boa, desde que não me meta a mão no cu. E não só. Começo a ficar fodido. Fico calado minu­tos a fio. Já nao sei se sinto ner­vo­sismo, ansi­e­dade ou depres­são. Estou sen­tado, calado que nem um rato, as mãos na cabeça, o cora­ção a 320 bati­das por minuto. Estou a sentir-me mal. Vejo o Cel­tic a domi­nar o jogo. Os gajos sem­pre a can­tar. É tudo deles, foda-se. É uma tor­tura: começo a pen­sar que não devia ter ido, que sofri­mento já che­gava, que aquilo é tudo uma merda, que o fute­bol não vale um cara­lho, que são só meia dúzia de gajos bási­cos atrás da bola, que o que eu gosto é de música e poe­sia e que cara­lho, eu juro, foda-se, juro mesmo que nunca mais vou ao fute­bol na puta da minha vida. O puto ao meu lado deve estar como eu. Não diz nada. Às tan­tas abre a boca e diz-me: “Eu já não sei”. Foda-se. Começo a expe­ri­men­tar a amar­gura do sofri­mento mais forte que alguma vez senti. Tenho a vida redu­zida a merda. Às tan­tas visu­a­lizo na minha mente pes­soas e alguns nicks do pes­soal aqui do forum (O Flash, O Plas­ma­tron, o Manel Poças e a Anfi­eld Road, tudo gente que nunca vi) e tento ima­gi­nar onde esta­rão eles àquela hora, e a pen­sar que deviam era estar aqui, mas, cara­lho, como não estão, tento entrar numa espé­cie de comu­ni­ca­ção tele­pá­tica com eles, de forma a, sei lá, encon­trar­mos um ponto de con­ver­gên­cia men­tal, jun­tar as for­ças, lança-las para den­tro do rel­vado, como se a nossa von­tade pudesse cair ali den­tro como uma espé­cie de relâm­pago e fazer com que o Porto não perca bola e faça pas­ses cer­tos, foda-se.… eu quero que a bola esteja no meio campo deles, não pas­sem a bola ao Baía, cara­lho, é para a frente que se joga, e às tan­tas há alguém (não me lem­bro quem) que volta a pas­sar a bola ao Baía e eu aí é que me passo mesmo dos cor­nos. Levanto-me. Grito: “Ó FILHO DE UMA PUTA DO CARALHO É PARA A FRENTE CARALHO PARA A FRENTE CARALHO!!!!!!! (ou coisa do género, não me lem­bro bem). À minha volta, num raio de 20 metros está tudo sen­tado, o pes­soal olha, quem é que aquele por­tuga lin­gri­nhas e de tronco nu, cromo do cara­lho, a gri­tar qual­quer coisa? Os esco­ce­ses atrás de mim comen­tam algo entre eles num calão inde­ci­frá­vel. E riem-se muito. Riem-se de mim. Estão-se a rir de mim, filhos da puta? O jogo acaba, há pro­lon­ga­mento e eu come> ço a ficar pre­o­cu­pado com a minha saúde. Tento res­pi­rar fundo durante alguns minu­tos e começo a sentir-me rela­ti­va­mente melhor. Até por­que o Porto já parece saber jogar à bola. Vejo o tempo a pas­sar e só desejo mais um golo, cara­lho, não peço mais, basta um, foda-se, onde está o Pos­tiga quando pre­ciso dele?, cara­lho, e entro outra vez no transe de sofri­mento, estilo come­çar a pen­sar para mim “foda-se, eu até dou os meus dis­cos todos e o meu orde­nado só para ganhar­mos esta merda” e outras mer­das do género com­ple­ta­mente incon­ce­bí­veis num momento mais raci­o­nal. Segunda parte do pro­lon­ga­mento. Sinto-me perto da morte. Tento acen­der um cigarro. A mão direita treme de tal forma que nem sequer con­sigo encos­tar a chama à ponta do tubo de nicotina.O tele­mó­vel treme no bolso. É uma men­sa­gem escrita do Jun­queira a dizer “tem calma pá.… a gente já resolve isto” e, de repente, volto a pen­sar na his­tó­ria da tele­pa­tia, e pergunto-me “mas como é que o gajo sabe que eu estou assim?” e depois penso que s calhar até é natu­ral ele ima­gi­nar mas não deixo de pen­sar na tele­pa­tia e sinto-me mais con­for­tá­vel com aque­las letras “tem calma pá” como se eu fosse um puto assus­tado com algo e tivesse che­gado o pai para pro­te­ger. Há o 3º golo do Porto. Não sei o que escre­ver. É um momento muito pra­te­ado, uma espé­cie de luz branca à minha volta. Devo ter gri­tado e sal­tado, sei lá, eu já nem estava no lugar, fui para os degraus mais abaixo e estava a ver aquela merda em pé, pá, nem sei bem. Sim, era tudo branco, uma espé­cie de névoa, estava tudo meio des­fo­cado, e convenci-me que era Deus que ali estava a ajudar-me e fiquei fodido por nunca ter ido á missa e essas mer­das e o cara­lho, e por já ter tido a mania que era anti-cristo na minha ado­les­cên­cia, e que afi­nal, cara­lho, Deus existe, e estava ali ao meu lado e eu sem saber como agradecer-lhe e pedir-lhe des­culpa por todos estes anos de falta de fé. O jogo acaba. Acho que abraço toda a gente e toda a gente me abraça e que tenho os bra­ços no ar e que tento gri­tar qual­quer coisa mas que não con­sigo por­que já não tenho voz e então limito-me a sal­tar que nem um cavalo. Os esco­ce­ses atrás de mim dão-me os para­béns e apertam-me a mão e eu, pimba, toma lá um abraço tam­bém, e a puta da vida é isto e nada mais existe na vida para além disto e deste resultado.