Estação dos Combatentes

Das Perguntas Difíceis

- Olhe, desculpe-me: como é que eu chego à Assem­bleia da Republica?

Estava vaga­mente per­dido na zona de San­tos. Gosto de Lis­boa mas como não nativo acabo, de vez em quando, por me per­der ou deso­ri­en­tar. Repa­rei, após ter feito a per­gunta, na ban­deira fran­cesa has­te­ada no pri­meiro andar do edi­fí­cio em frente. Tenho uma vaga lem­brança de a Embai­xada de França ser pela zona mas, rei­tero: não conheço Lis­boa assim tão bem.

O poli­cia a quem me dirigi ergueu os olhos do iPhone em que focava a sua aten­ção. Pos­si­vel­mente ten­tava as quase inal­can­çá­veis três estre­las num dos níveis finais do Angry Birds. Pre­sumo que só isso o impe­dia de mor­rer de tédio.

- Olhe, desculpe-me: como é que eu chego à Assem­bleia da Republica?

Após reco­lo­car men­tal­mente a per­gunta, veio-me à cabeça uma velha piada. Julgo que é qual­quer coisa do género:

Um músico que tocava na rua é abor­dado por um tran­seunte que lhe per­gunta:
– Olhe, desculpe-me: como é que eu chego a Car­ne­gie Hall?
– Pra­ti­cando muito.

Não é que pos­sua uma ambi­ção em ter­mos de car­reira polí­tica mas achei curi­oso como a minha per­gunta, ino­cente, afi­nal podia estar armadilhada.

- Olhe, desculpe-me: como é que eu chego à Assem­bleia da Republica?

A res­posta podia ser “inscrevendo-se num par­tido e par­ti­ci­pando muito”. Claro que tam­bém podia dizer “men­tindo muito” ou “rou­bando muito”, é que segundo a visão popu­lar, são todos uns gatu­nos, bem o sabemos.

- Vai por esta rua sem­pre em frente e lá ao fundo vira à esquerda; se virar à direita vai dar ao rio — respondeu-me, sim­pá­tico e com um sorriso.

Pen­sando mais uma vez nas liga­ções polí­ti­cas que se podiam fazer, agra­deci e segui em frente. Che­guei, even­tu­al­mente, à inter­sec­ção onde supos­ta­mente esco­lhe­ria entre o rio e o Parlamento.

Atra­ves­sei com cau­tela a estrada: o cor­ru­pio entre os extre­mos era intenso em ambos os sen­ti­dos. Havia os que se apro­xi­ma­vam ambi­ci­o­sa­mente da Assem­bleia e os que, a medo, eram empur­ra­dos na direc­ção do Tejo (que, como sem­pre, pare­cia indi­fe­rente a tudo isto, com a sua dou­rada pacatez).

Segui em frente após che­gar ao pas­seio do outro lado. A per­gunta tinha, para mim, mera­mente o intuito de con­fir­mar. Não só eu sabia o cami­nho, como sabia que não era ao Par­la­mento que eu que­ria ir ter, estava ape­nas a garan­tir que não seguia o cami­nho errado. Não que­ria mesmo ir lá ter. Nem tão pouco ao rio, refira-se.

Dois turis­tas interpelam-me e julgo não ter per­ce­bido cor­rec­ta­mente a pergunta:

- Olhe, desculpe-me: como é que eu chego a Prín­cipe Real?

Lembrei-me que ainda devem haver prin­ce­sas sol­tei­ras nas casas reais euro­peias mas não devia ser bem essa a res­posta esperada.

- Des­culpe, não sou de cá.

Entrei depois num café e pedi uma limo­nada. Feliz­mente as per­gun­tas com­pli­ca­das tinham acabado.

Das Poesias V — Chico

Tal­vez não fos­ses forte
para a feli­ci­dade,
nem para o medo.

Olha as pes­soas feli­zes:
ocultam-se na feli­ci­dade
como em casa, erguem

muros, fecham as jane­las,
o medo
é a sua fortaleza.

O que dis­pu­tam à morte
é maior que elas,
a morte não lhes basta.

Manuel Antó­nio Pina, in “Cui­da­dos Intensivos”

Agá

O H maiús­culo, na sua forma, assemelha-se às duas mar­gens de um rio uni­das por uma ponte. Acho curi­oso obser­var que é por essa mesma letra que começa a pala­vra que designa a arte de cons­truir pon­tes entre o pas­sado e o futuro pas­sando sobre o pre­sente: a His­tó­ria. A poé­tica levar-nos-ia agora a con­cluir que o rio sobre o qual a His­tó­ria cons­trói pon­tes é o Lete, o tal rio mito­ló­gico cuja água pro­vo­cava o esque­ci­mento a quem a bebesse.

Pode­mos extra­po­lar a ideia, claro: “con­tar uma his­tó­ria” é, tam­bém, fazer pon­tes. Temos, por exem­plo, a ponte que se cria entre nós, que a con­ta­mos, e o outro, que a ouve. Dessa liga­ção ini­cial, novas pon­tes irão bro­tar. Uma vez ini­ci­ado, o movi­mento não será eterno mas a sua expan­são será dema­si­ado veloz para que a pos­sa­mos acom­pa­nhar ou traçar.

Parte de nós aquele ímpeto ini­cial em que, vigo­ro­sa­mente, ata­ca­mos o H e lan­ça­mos a corda. Seja para con­tar como nos cor­reu o dia ou o filme que já vimos vezes sem conta, nunca será menos poten­ci­a­dora uma ponte do que outra. E mesmo que a pas­sa­gem, quer do tempo quer da água, todos os dias lhe tente ero­dir as fun­da­ções, pode­re­mos sem­pre fazer alguma coisa por­que uma nova his­tó­ria ser­virá para ligar em outro ponto as duas margens.

As his­tó­rias par­tem sem­pre de um pas­sado e é por isso que as con­ta­mos. Diria até que há um certo pro­cesso de anam­nese no acto de con­tar uma his­tó­ria, como se todas as liga­ções já tives­sem sido pos­sí­veis e nos limi­tás­se­mos a recriá-las no presente.

 

Tra­di­ci­o­nal­mente, todas as his­tó­rias come­çam por “era uma vez”. Na ver­dade, todas as his­tó­rias come­çam por H.

Trinta e sete

Quando eu nasci, o 25 de Abril já era feri­ado. Quando eu nasci não tinha noção do que isso repre­sen­tava ou sequer do que era repre­sen­tar ou sequer do que era um feri­ado. Mas a 25 de Abril de 1985, lá estava eu, de punho erguido, tenho a cer­teza. Por­que era essa a beleza latente na Revo­lu­ção, vista assim, à dis­tân­cia de quem não a viveu: por muito que não a per­ce­bês­se­mos, era a Revo­lu­ção de todos nós para todos nós.

Tal­vez por isso no dia de con­tar os anos à Revo­lu­ção caio sem­pre no vai­doso exer­cí­cio de ima­gi­nar que foi por mim que naquele “dia ini­cial, inteiro e limpo” se saiu à rua e se falou mais alto e se ergueu os braços.

E a feli­ci­dade faz-me o cora­ção ace­le­rar por­que sim, foi tam­bém por mim.

Das Poesias IV — Salgueiro Maia

Aquele que na hora da vitó­ria
Res­pei­tou o vencido

Aquele que deu tudo e não pediu a paga
Aquele que na hora da ganân­cia
Per­deu o ape­tite

Aquele que amou os outros e por isso
Não cola­bo­rou com a sua igno­rân­cia ou vício

Aquele que foi «Fiel à pala­vra dada à ideia tida»
Como antes dele mas tam­bém por ele
Pes­soa disse.


Sophia de Mello Brey­ner Andresen

Das Poesias III — Rita and the rifle

Between Rita and my eyes there is a rifle
And who­e­ver knows Rita kne­els
and prays
To the divi­nity in those honey-colored eyes
And I kis­sed Rita
When she was young
And I remem­ber how she appro­a­ched
And how my arm cove­red the love­li­est of braids
And I remem­ber Rita
The way a spar­row remem­bers its stream

Ah, Rita

Between us there are a mil­lion spar­rows and ima­ges
And many a ren­dez­vous
Fired at by a rifle
Rita’s name was a feast in my mouth
Rita’s body was a wed­ding in my blood
And I was lost in Rita for two years
And for two years she slept on my arm
And we made pro­mi­ses
Over the most beau­ti­ful of cups
And we bur­ned in the wine of our lips
And we were born again

Ah, Rita!

What before this rifle could have tur­ned my eyes from yours
Except a nap or two or honey-colored clouds?
Once upon a time
Oh, the silence of dusk
In the mor­ning my moon migra­ted to a far place
Towards those honey-colored eyes

And the city swept away all the sin­gers
And Rita
Between Rita and my eyes — A rifle


Mah­moud Darwish

Dos becos

Era uma can­ção extre­ma­mente melan­có­lica. Acho que da Glo­ria Este­fan, aquela do “Con Los Años Que Me Que­dan”. E ouvia-se vinda de uma janela algu­res lá em cima. Debaixo do óculo da dis­tân­cia tem­po­ral, já não me lem­bro sequer qual Via ou Vicolo era, como se se tra­tasse de uma memó­ria apa­gada, rou­bada a esta cidade que sem­pre as soube guar­dar com vigor, nem que delas ape­nas res­tem pedras.

Como sítio, seria decal­cado para um pos­tal hou­vesse um qual­quer fotó­grafo a lá ter pas­sado. Era estreito, não mais do que três metros de lar­gura. Havia um arco, debaixo do qual se pas­sava para seguir em frente ou vol­tar para trás, não esque­cendo nunca que há sem­pre dois sen­ti­dos. Em tudo. As pare­des pin­ta­das daquele laranja bar­rento fil­tra­vam o azul do céu limpo que Feve­reiro ofe­re­cia, reflec­tindo ape­nas uma luz sépia, des­pro­vida de brilho.

Peque­nos vasos meios flo­ri­dos e encos­ta­dos à parede pon­tu­a­vam com verde aquele cená­rio quase desér­tico, ama­re­lado, melancólico.

Várias jane­las, na sua mai­o­ria fecha­das. Sobra­vam a da música e uma ou outra onde se avis­ta­vam cor­ti­nas fugi­ti­vas, dan­çando na ligeira brisa que o Tibre fazia soprar. Três degraus sepa­ra­vam da rua a única porta exis­tente. Sen­tada, julguei-a assus­tada ao ver-me apa­re­cer, com ar de turista, de des­co­bri­dor, de per­dido. Sorriu-me. Pelos olhos diria que tinha cho­rado todas as mágoas do mundo mas que jun­tara em si todas as for­ças que tinha para me ofe­re­cer aquele sor­riso. Havia nele uma implo­ra­ção deses­pe­rada, um cla­mor digno de um mori­bundo supli­cando a extrema-unção para poder ao mundo dizer adeus em paz.

Sentei-me a seu lado e estendi-lhe a mão. Ela apertou-a e vol­tou ao seu choro de puri­fi­ca­ção, de lim­peza, de catarse.

Não sei se seria can­saço, mas as lágri­mas para­ram. Pediu-me des­culpa, agradeceu-me, disse que não sabia o que fazer, agradeceu-me outra vez, pediu-me des­culpa. E falou. Falou inin­ter­rup­ta­mente durante algum tempo.

Falou de um Verão que pas­sa­ram em não sei onde, perto da Sicí­lia, e de algo que ele lhe tinha dito e ela tinha acre­di­tado. Acho que tinha a ver com amor. Falou de um con­certo onde tinham ido e onde tinham os dois cho­rado abra­ça­dos. Contou-me a his­tó­ria de como se tinham conhe­cido e de como ele tinha o cheiro do seu pai (ou de como ela se lem­brava do seu pai ter sido). Con­tou uma qual­quer his­tó­ria que ligava a Via Fla­mi­nia à Piazza della Radio atra­vés de um Lit­tle Yan­kee e explu­sou uma recor­da­ção que envol­via a Fonte de Trevi. Foi reve­lando os pas­sos que a trou­xe­ram até ali, ao beco, pur­ga­tó­rio escon­dido no meio da Cidade Eterna. Havia nela a inqui­e­tude de uma idade adulta não alcan­çada, de um salto falhado em direc­ção ao cres­cer. Con­ti­nuei a dar-lhe a mão e a ouvi-la. Soube-lhe a his­tó­ria, a vida, os sonhos, as ale­grias e as crenças.

Calou-se. Vol­ta­ram as des­cul­pas. Perguntou-me se era mudo. Sorri. Disse-lhe que de mudo não tinha nada, que falava até demais. “Podias ter dito para me calar”.

Levantei-me. Que­ria ter-lhe dito alguma frase digna de Con­fú­cio, um silo­gismo pleno de sabe­do­ria, uma máxima alta­mente citá­vel. Só con­se­gui bal­bu­ciar que não lhe res­tava mais nada na vida senão viver e seguir em frente. “Tens razão”

Acho que ainda a ouvi dizer que se cha­mava Clau­dia mas perdi entre­tanto a con­cen­tra­ção. Outra vez a Glo­ria Estefan.

Alguém ouvia o raio da música e ali, com tudo aquilo, fazia todo o sentido.

Das Asas

Nem pre­ci­sa­vas de ter expli­cado a foto­gra­fia.
Estás coberta, pro­te­gida, a salvo dos fan­tas­mas da las­cí­via do mundo. Sorris ligei­ra­mente, como só a ver­da­deira feli­ci­dade o per­mite (sabes bem que todos os outro sor­ri­sos são for­ça­dos à alma por um corpo obs­ti­nado). Olhas para longe com a dis­pli­cên­cia daque­les a quem o mundo já não chega e só para lá do hori­zonte está o sítio onde se per­tence. O enlevo com que repou­sas lembra-me uma qual­quer obra-prima, esboço imper­feito de uma per­fei­ção com­pleta. Sei que te clas­si­fi­ca­rias divina, ousasse algum humano che­gar perto de ti a inqui­rir quem eras. Há uma porta aberta, des­fo­cada, que não capta o nosso olhar por­que não que­re­mos sair dali. Há um canto de um mapa que a objec­tiva cortou, para que fosse uma lem­brança inde­ter­mi­nada no espaço.

Dor. Sei que é isso que te resta hoje ao veres esta fotografia. Lembras-me o anjo de Gar­rett, o das asas bran­cas, o que as per­deu e nunca mais con­se­guiu subir ao céu em se can­sando do mundo. Amarram-te agora cor­das gros­sas, que roças na pele até fazer ferida quando delas te ten­tas sol­tar. Despem-te, puxam-te o cober­tor e roubam-te a almo­fada para os subs­ti­tuí­rem pelo vento frio de inverno e por uma pedra de ares­tas pon­ti­a­gu­das. Recu­sas a que te vejam as feri­das, os res­tos das asas cor­ta­das a san­gue frio (haverá anes­te­sia alguma capaz de impe­dir as mágoas do amor ampu­tado?). Mostro-te as minhas feri­das.
Nunca tive asas como as tuas mas cica­tri­zes não me fal­tam. Sei que as achas ridí­cu­las de tão peque­nas mas mostro-te como me doem.

Passam-se os dias e con­fias em mim. San­gras, limpo-te as feridas; gemes, oiço-te; cho­ras, seco-te as lágri­mas. Mostras-me o san­gue que escor­reu pelo chão áspero da cela em que te pren­de­ram para que eu veja a tua dor maior que o mundo. Mostras-me as penas das asas que te arran­ca­ram, explicas-me o pro­cesso da cru­el­dade a que te sujeitaram. Ajudo a transferir-te para outra cela, mais clara. Insis­tes em levar os res­tos das asas. Sei que ainda acre­di­tas que as podem reviver, colá-las ao teu dorso e veres-te de novo a voar. Já sei que não ser­vem as asas que te ten­tam impin­gir mas não é por mal que o fazem.

Da pri­são, nunca te pode­rei liber­tar. Só tu por tua força dela pode­rás fugir. E eu, só com a minha força con­se­gui­rei fugir tam­bém. As fugas fazem-se sozi­nhas aqui. Sem­pre. Podias nunca me ter dito nada que ao mostrares-me a foto­gra­fia per­ce­be­ria tudo: sabe­ria as tuas dores, as tuas mágoas, as tuas his­tó­rias, os teus voos. Sabe­ria que, mais do que tudo, pre­ci­sa­rias de quem te fizesse aguen­tar a tua esta­dia terrena. Serás deusa outra vez, minha que­rida, acre­dita em mim.

Mas até lá, esquece-te dos céus e apro­veita a Terra.

Para a Sara

Das Poesias II — Fado para a Lua de Lisboa

Ó Lua, espe­lho do chão
que andas no céu pen­du­rado,
holo­fote da ilu­são
pelo turismo alu­gado,
não ilu­mi­nes em vão
os sul­cos do empe­drado!

Denun­cia nas vale­tas
as som­bras que tu arras­tas:
pros­ti­tu­tas, pro­xe­ne­tas,
silhu­e­tas de pede­ras­tas…
Colos bran­cos. Ren­das pre­tas.
Casas tor­tas. Pedras gas­tas.

As rugas do sobres­salto,
Ó Lua não as des­truas!
Tu viste car­ros de assalto
ron­da­rem por estas ruas;
viste rola­rem no asfalto
ves­tes mais alvas que as tuas.

Foste a lua a que se expu­nha
aos tiros a mul­ti­dão;
espe­lhaste na tua unha
a secu­lar afli­ção;
e já foste tes­te­mu­nha
dos fogos da Inqui­si­ção.

Pro­cis­sões do Santo Ofí­cio…
Filei­ras de con­de­na­dos…
À noite, nem só o vício
ras­teja por estes lados:
as ser­pen­tes do suplí­cio
sil­vam nos pátios mura­dos…

Ó Lua, guarda o retrato
de tudo, tudo a que assis­tas!
Não quei­ras pas­sar ao lado
da des­graça que visi­tas!
Nem quei­ras ser infa­mado
pas­sa­tempo de turis­tas!

Clo­ro­fór­mio dos enfer­mos,
se foges dos hos­pi­tais,
então recolhe-te aos ermos
deser­tos celes­ti­ais!
E enquanto te não mere­cer­mos
não te acen­das nunca mais!

David Mourão-Ferreira

Sem Título

Exer­ci­ta­mos sem­pre a mente como cri­an­ças. Ima­gi­na­mos, brin­ca­mos ao faz de conta, pen­sa­mos “e se fosse eu ali?”. Será maior a frequên­cia das vezes que nos ima­gi­na­re­mos bom­bei­ros, médi­cos, astro­nau­tas, reis, deu­ses ou pais do que taxi­der­mis­tas, escra­vos, men­di­gos, fun­ci­o­ná­rios públi­cos, jar­di­nei­ros ou lenha­do­res.
Hoje faço o raro exer­cí­cio de me ima­gi­nar edi­tor de jor­nal. Um jor­nal qual­quer, mas não num dia qual­quer. Não nos ima­gi­na­mos médi­cos a sal­var uma vida qual­quer, imaginamo-nos médi­cos a sal­var uma deter­mi­nada vida. Imagino-me edi­tor de um qual­quer jor­nal há qua­renta anos atrás. A mis­são? Esco­lher um título para a capa, claro. Todos os jor­nais do mundo terão títu­los sobre a Lua, sobre o feito, sobre os homens que pela pri­meira vez lá foram. Hoje, qua­renta anos depois nin­guém se lem­brará das outras notí­cias meno­res que esta­rão tam­bém na capa. Tenho de encon­trar um título. Um bom. Men­tira, um óptimo título. Um que fique, um que seja his­tó­rico como a frase de Neil Arms­trong. Que pode­ria ter dito ao che­gar à Lua a frase de um outro Arms­trong, este de nome Louis, “What a Won­der­ful World”.
Perco horas a ima­gi­nar o título. Já podia ter sal­tado de ideia, já podia ser Arms­trong a ima­gi­nar uma outra frase para ficar na His­tó­ria, ou pode­ria ser Ken­nedy a pro­me­ter a Lua. Não, con­ti­nuo preso ao edi­tor que quer que o mundo lem­bre a capa do seu jor­nal. Escrevem-se os arti­gos, as poe­sias jor­na­lís­ti­cas do dia em que o homem, pela pri­meira vez, cami­nhou fisi­ca­mente na Lua. A reda­ção está ao rubro. Mas espera-se um título, uma frase que não será his­tó­rica mas con­tará a His­tó­ria. “The Eagle has lan­ded” Ocorrem-me metá­fo­ras com pás­sa­ros, com­pa­ra­ções a deu­ses. Arms­trong, Aldrin. Par­ti­lho com eles a pri­meira letra do nome. Aldrin, André, Arms­trong. Pode­ria ter sido eu, não fosse eu um pobre edi­tor de jor­nal.
Vem-me à cabeça um livro infan­til: “Flicts”. O livro conta a his­tó­ria de uma cor que pro­cura o seu lugar no mundo. Ter­mina com Neil Arms­trong a con­fir­mar: “The Moon is Flicts”. Só lá, a cor encon­trou o seu lugar. Não pode­ria ter sido este o meu título, mas era um dos bons: “A Lua é Flicts”.
“Só falta o título, senhor edi­tor”, diz-me um qual­quer per­so­na­gem do meu sonho, despertando-me para a hora da deci­são no meu mundo ima­gi­nado. E deixo para trás as cores, as poe­sias, as auten­ti­ci­da­des jor­na­lís­ti­cas ou as fra­ses his­tó­ri­cas.
Decidi-me por não ter nenhum título, ape­nas uma foto. Na altura não seria pos­sí­vel pois pro­va­vel­mente não che­ga­ria a tempo de ser publi­cada, a tec­no­lo­gia não o per­mi­ti­ria, sei lá: não sou um edi­tor a sério e de jor­na­lismo sei pouco. Fica­ria esta foto ape­nas. Sei bem que o que nos levou lá foi ape­nas a von­tade imensa de nos ver­mos a nós pró­prios. Como quando cap­tu­ra­mos as cores num qua­dro ou escul­pi­mos um poema, como quando ama­mos com o dom da ami­zade ou com o dom do amor, resume-se tudo a expelir-mo-nos para que nos veja­mos em outras for­mas ou nos outros. De fora. Vermo-nos. Da Lua.

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