Estação dos Combatentes

 

 

 

 

 

«O nome do meu pai era Clevie Raymond Carver. A sua família chamava-lhe Raymond e os amigos chamavam-lhe C.R. Deram-me o nome de Raymond Clevie Carver Júnior, e sempre odiei a parte do “Júnior”. Quando era pequeno, o meu pai chamava-me Sapo, e disso eu gostava. Mas, mais tarde, como toda a gente na família, ele começou a chamar-me Júnior. E continuou a tratar-me assim até eu ter treze ou catorze anos, idade em que anunciei que não responderia mais por esse nome. Por isso começou a chamar-me Doc. A partir desse momento, e até ao dia em que morreu, a 17 de Junho de 1967, tratou-me por Doc, ou então por Filho.
Quando ele morreu, a minha mãe ligou à minha mulher para lhe dar a notícia. Eu encontrava-me afastado da minha família nessa altura, entre vidas, tentando entrar na Faculdade de Biblioteconomia da Universidade do Iowa. Quando a minha mulher atendeu o telefone, a minha mãe exclamou: “O Raymond morreu!” Por um instante a minha mulher julgou que a minha mãe lhe estava a dizer que eu tinha morrido. Depois a minha mãe explicou de qual dos Raymond estava a falar e a minha mulher disse: “Graças a Deus. Achei que estava a falar do meu Raymond.”»

[in Fogos, de Raymond Carver, trad. de João Tordo e João Luís Barreto Guimarães, Quetzal, 2012]

Lindíssimo e encontrado aqui.

Das Poesias VIII – [NÃO GOSTO DE CONTAR OS DESASTRES EM DETALHE]

Não gosto de contar os desastres em detalhe
mas, se quiserem, posso escrever uma lista com nomes e camas.

Sou bem capaz de molhar o pezinho na história da barbárie,
condecorar o medo,
cortar-me a mão com que limpo as feridas
de uma civilização em queda.

Posso perfeitamente
ir afiando o gume da esperança
com a flor branca de um cancro.

Sou, em definitivo, este comediante de rua
que serve a desconhecidos,
em copos pequenos,
a medida certa da sua agonia.
Descobre sonhos
onde outros só encontram coelhos.
Hoje, por exemplo, quando tirou as luvas,
viu que lhe faltavam dedos.

Golgona Anghel in “Vim Porque me Pagaram”

Das Poesias VII – II Soneto para Cesário

Se te encontrasse, agora, na paisagem
nocturna dos fantasmas da cidade,
contava-te dos nossos pobres versos
no teu rasto de sombra e claridade

Contava-te do frio que há em medir
a distância entre as mãos e as estrelas,
com lágrimas de pedra nos sapatos
e um cansaço impossível de escondê-las

Contava-te – sei lá! – desta rotina
de embalarmos a morte nas paredes,
de tecermos o destino nas valetas

De uma história de luas e de esquinas,
com retratos e flores da madrugada
a boiarem na água das sarjetas.

Dinis Machado

Das Poesias VI – As Coisas do Corpo

Demasiado internas para lhes conhecermos os contornos.
Demasiado ocultas para lhes saber as razões.
Ostensivas, as coisas do corpo exibem-se perfeitas. Segundos
em que cheguei a odiá-las. Estavam demasiado longe
dos lugares a que devíamos regressar quando eu envelhecesse.
Puxei-te pela mão. A mão soltou-se do teu corpo.
Coloquei-a no lugar do coração; com as unhas
construí um fecho novo para o colar de pérolas;
vendi a pele e voltei a encher o frigorífico.
Alguém se sentou à mesa. Tinha o teu nome gravado;
um rosto sem marcas, irreconhecível,
aguardava a mão capaz de lhe levar coisas à boca.
Coisas de alimento às coisas do corpo. Como esta mão a bombear-te
o coração do lado errado do peito.

Inês Fonseca Santos, in “As Coisas”

Das Perguntas Difíceis

– Olhe, desculpe-me: como é que eu chego à Assembleia da Republica?

Estava vagamente perdido na zona de Santos. Gosto de Lisboa mas como não nativo acabo, de vez em quando, por me perder ou desorientar. Reparei, após ter feito a pergunta, na bandeira francesa hasteada no primeiro andar do edifício em frente. Tenho uma vaga lembrança de a Embaixada de França ser pela zona mas, reitero: não conheço Lisboa assim tão bem.

O policia a quem me dirigi ergueu os olhos do iPhone em que focava a sua atenção. Possivelmente tentava as quase inalcançáveis três estrelas num dos níveis finais do Angry Birds. Presumo que só isso o impedia de morrer de tédio.

– Olhe, desculpe-me: como é que eu chego à Assembleia da Republica?

Após recolocar mentalmente a pergunta, veio-me à cabeça uma velha piada. Julgo que é qualquer coisa do género:

Um músico que tocava na rua é abordado por um transeunte que lhe pergunta:
– Olhe, desculpe-me: como é que eu chego a Carnegie Hall?
– Praticando muito.

Não é que possua uma ambição em termos de carreira política mas achei curioso como a minha pergunta, inocente, afinal podia estar armadilhada.

– Olhe, desculpe-me: como é que eu chego à Assembleia da Republica?

A resposta podia ser “inscrevendo-se num partido e participando muito”. Claro que também podia dizer “mentindo muito” ou “roubando muito”, é que segundo a visão popular, são todos uns gatunos, bem o sabemos.

– Vai por esta rua sempre em frente e lá ao fundo vira à esquerda; se virar à direita vai dar ao rio – respondeu-me, simpático e com um sorriso.

Pensando mais uma vez nas ligações políticas que se podiam fazer, agradeci e segui em frente. Cheguei, eventualmente, à intersecção onde supostamente escolheria entre o rio e o Parlamento.

Atravessei com cautela a estrada: o corrupio entre os extremos era intenso em ambos os sentidos. Havia os que se aproximavam ambiciosamente da Assembleia e os que, a medo, eram empurrados na direcção do Tejo (que, como sempre, parecia indiferente a tudo isto, com a sua dourada pacatez).

Segui em frente após chegar ao passeio do outro lado. A pergunta tinha, para mim, meramente o intuito de confirmar. Não só eu sabia o caminho, como sabia que não era ao Parlamento que eu queria ir ter, estava apenas a garantir que não seguia o caminho errado. Não queria mesmo ir lá ter. Nem tão pouco ao rio, refira-se.

Dois turistas interpelam-me e julgo não ter percebido correctamente a pergunta:

– Olhe, desculpe-me: como é que eu chego a Príncipe Real?

Lembrei-me que ainda devem haver princesas solteiras nas casas reais europeias mas não devia ser bem essa a resposta esperada.

– Desculpe, não sou de cá.

Entrei depois num café e pedi uma limonada. Felizmente as perguntas complicadas tinham acabado.

Das Poesias V – Chico

Talvez não fosses forte
para a felicidade,
nem para o medo.

Olha as pessoas felizes:
ocultam-se na felicidade
como em casa, erguem

muros, fecham as janelas,
o medo
é a sua fortaleza.

O que disputam à morte
é maior que elas,
a morte não lhes basta.

Manuel António Pina, in “Cuidados Intensivos”

Agá

O H maiúsculo, na sua forma, assemelha-se às duas margens de um rio unidas por uma ponte. Acho curioso observar que é por essa mesma letra que começa a palavra que designa a arte de construir pontes entre o passado e o futuro passando sobre o presente: a História. A poética levar-nos-ia agora a concluir que o rio sobre o qual a História constrói pontes é o Lete, o tal rio mitológico cuja água provocava o esquecimento a quem a bebesse.

Podemos extrapolar a ideia, claro: “contar uma história” é, também, fazer pontes. Temos, por exemplo, a ponte que se cria entre nós, que a contamos, e o outro, que a ouve. Dessa ligação inicial, novas pontes irão brotar. Uma vez iniciado, o movimento não será eterno mas a sua expansão será demasiado veloz para que a possamos acompanhar ou traçar.

Parte de nós aquele ímpeto inicial em que, vigorosamente, atacamos o H e lançamos a corda. Seja para contar como nos correu o dia ou o filme que já vimos vezes sem conta, nunca será menos potenciadora uma ponte do que outra. E mesmo que a passagem, quer do tempo quer da água, todos os dias lhe tente erodir as fundações, poderemos sempre fazer alguma coisa porque uma nova história servirá para ligar em outro ponto as duas margens.

As histórias partem sempre de um passado e é por isso que as contamos. Diria até que há um certo processo de anamnese no acto de contar uma história, como se todas as ligações já tivessem sido possíveis e nos limitássemos a recriá-las no presente.

 

Tradicionalmente, todas as histórias começam por “era uma vez”. Na verdade, todas as histórias começam por H.

Trinta e sete

Quando eu nasci, o 25 de Abril já era feriado. Quando eu nasci não tinha noção do que isso representava ou sequer do que era representar ou sequer do que era um feriado. Mas a 25 de Abril de 1985, lá estava eu, de punho erguido, tenho a certeza. Porque era essa a beleza latente na Revolução, vista assim, à distância de quem não a viveu: por muito que não a percebêssemos, era a Revolução de todos nós para todos nós.

Talvez por isso no dia de contar os anos à Revolução caio sempre no vaidoso exercício de imaginar que foi por mim que naquele “dia inicial, inteiro e limpo” se saiu à rua e se falou mais alto e se ergueu os braços.

E a felicidade faz-me o coração acelerar porque sim, foi também por mim.

Das Poesias IV – Salgueiro Maia

Aquele que na hora da vitória
Respeitou o vencido

Aquele que deu tudo e não pediu a paga
Aquele que na hora da ganância
Perdeu o apetite

Aquele que amou os outros e por isso
Não colaborou com a sua ignorância ou vício

Aquele que foi «Fiel à palavra dada à ideia tida»
Como antes dele mas também por ele
Pessoa disse.


Sophia de Mello Breyner Andresen

Das Poesias III – Rita and the rifle

Between Rita and my eyes there is a rifle
And whoever knows Rita kneels
and prays
To the divinity in those honey-colored eyes
And I kissed Rita
When she was young
And I remember how she approached
And how my arm covered the loveliest of braids
And I remember Rita
The way a sparrow remembers its stream

Ah, Rita

Between us there are a million sparrows and images
And many a rendezvous
Fired at by a rifle
Rita’s name was a feast in my mouth
Rita’s body was a wedding in my blood
And I was lost in Rita for two years
And for two years she slept on my arm
And we made promises
Over the most beautiful of cups
And we burned in the wine of our lips
And we were born again

Ah, Rita!

What before this rifle could have turned my eyes from yours
Except a nap or two or honey-colored clouds?
Once upon a time
Oh, the silence of dusk
In the morning my moon migrated to a far place
Towards those honey-colored eyes

And the city swept away all the singers
And Rita
Between Rita and my eyes — A rifle


Mahmoud Darwish

Dos becos

Era uma canção extremamente melancólica. Acho que da Gloria Estefan, aquela do “Con Los Años Que Me Quedan”. E ouvia-se vinda de uma janela algures lá em cima. Debaixo do óculo da distância temporal, já não me lembro sequer qual Via ou Vicolo era, como se se tratasse de uma memória apagada, roubada a esta cidade que sempre as soube guardar com vigor, nem que delas apenas restem pedras.

Como sítio, seria decalcado para um postal houvesse um qualquer fotógrafo a lá ter passado. Era estreito, não mais do que três metros de largura. Havia um arco, debaixo do qual se passava para seguir em frente ou voltar para trás, não esquecendo nunca que há sempre dois sentidos. Em tudo. As paredes pintadas daquele laranja barrento filtravam o azul do céu limpo que Fevereiro oferecia, reflectindo apenas uma luz sépia, desprovida de brilho.

Pequenos vasos meios floridos e encostados à parede pontuavam com verde aquele cenário quase desértico, amarelado, melancólico.

Várias janelas, na sua maioria fechadas. Sobravam a da música e uma ou outra onde se avistavam cortinas fugitivas, dançando na ligeira brisa que o Tibre fazia soprar. Três degraus separavam da rua a única porta existente. Sentada, julguei-a assustada ao ver-me aparecer, com ar de turista, de descobridor, de perdido. Sorriu-me. Pelos olhos diria que tinha chorado todas as mágoas do mundo mas que juntara em si todas as forças que tinha para me oferecer aquele sorriso. Havia nele uma imploração desesperada, um clamor digno de um moribundo suplicando a extrema-unção para poder ao mundo dizer adeus em paz.

Sentei-me a seu lado e estendi-lhe a mão. Ela apertou-a e voltou ao seu choro de purificação, de limpeza, de catarse.

Não sei se seria cansaço, mas as lágrimas pararam. Pediu-me desculpa, agradeceu-me, disse que não sabia o que fazer, agradeceu-me outra vez, pediu-me desculpa. E falou. Falou ininterruptamente durante algum tempo.

Falou de um Verão que passaram em não sei onde, perto da Sicília, e de algo que ele lhe tinha dito e ela tinha acreditado. Acho que tinha a ver com amor. Falou de um concerto onde tinham ido e onde tinham os dois chorado abraçados. Contou-me a história de como se tinham conhecido e de como ele tinha o cheiro do seu pai (ou de como ela se lembrava do seu pai ter sido). Contou uma qualquer história que ligava a Via Flaminia à Piazza della Radio através de um Little Yankee e explusou uma recordação que envolvia a Fonte de Trevi. Foi revelando os passos que a trouxeram até ali, ao beco, purgatório escondido no meio da Cidade Eterna. Havia nela a inquietude de uma idade adulta não alcançada, de um salto falhado em direcção ao crescer. Continuei a dar-lhe a mão e a ouvi-la. Soube-lhe a história, a vida, os sonhos, as alegrias e as crenças.

Calou-se. Voltaram as desculpas. Perguntou-me se era mudo. Sorri. Disse-lhe que de mudo não tinha nada, que falava até demais. “Podias ter dito para me calar”.

Levantei-me. Queria ter-lhe dito alguma frase digna de Confúcio, um silogismo pleno de sabedoria, uma máxima altamente citável. Só consegui balbuciar que não lhe restava mais nada na vida senão viver e seguir em frente. “Tens razão”

Acho que ainda a ouvi dizer que se chamava Claudia mas perdi entretanto a concentração. Outra vez a Gloria Estefan.

Alguém ouvia o raio da música e ali, com tudo aquilo, fazia todo o sentido.

Das Asas

Nem precisavas de ter explicado a fotografia.
Estás coberta, protegida, a salvo dos fantasmas da lascívia do mundo. Sorris ligeiramente, como só a verdadeira felicidade o permite (sabes bem que todos os outro sorrisos são forçados à alma por um corpo obstinado). Olhas para longe com a displicência daqueles a quem o mundo já não chega e só para lá do horizonte está o sítio onde se pertence. O enlevo com que repousas lembra-me uma qualquer obra-prima, esboço imperfeito de uma perfeição completa. Sei que te classificarias divina, ousasse algum humano chegar perto de ti a inquirir quem eras. Há uma porta aberta, desfocada, que não capta o nosso olhar porque não queremos sair dali. Há um canto de um mapa que a objectiva cortou, para que fosse uma lembrança indeterminada no espaço.

Dor. Sei que é isso que te resta hoje ao veres esta fotografia. Lembras-me o anjo de Garrett, o das asas brancas, o que as perdeu e nunca mais conseguiu subir ao céu em se cansando do mundo. Amarram-te agora cordas grossas, que roças na pele até fazer ferida quando delas te tentas soltar. Despem-te, puxam-te o cobertor e roubam-te a almofada para os substituírem pelo vento frio de inverno e por uma pedra de arestas pontiagudas. Recusas a que te vejam as feridas, os restos das asas cortadas a sangue frio (haverá anestesia alguma capaz de impedir as mágoas do amor amputado?). Mostro-te as minhas feridas.
Nunca tive asas como as tuas mas cicatrizes não me faltam. Sei que as achas ridículas de tão pequenas mas mostro-te como me doem.

Passam-se os dias e confias em mim. Sangras, limpo-te as feridas; gemes, oiço-te; choras, seco-te as lágrimas. Mostras-me o sangue que escorreu pelo chão áspero da cela em que te prenderam para que eu veja a tua dor maior que o mundo. Mostras-me as penas das asas que te arrancaram, explicas-me o processo da crueldade a que te sujeitaram. Ajudo a transferir-te para outra cela, mais clara. Insistes em levar os restos das asas. Sei que ainda acreditas que as podem reviver, colá-las ao teu dorso e veres-te de novo a voar. Já sei que não servem as asas que te tentam impingir mas não é por mal que o fazem.

Da prisão, nunca te poderei libertar. Só tu por tua força dela poderás fugir. E eu, só com a minha força conseguirei fugir também. As fugas fazem-se sozinhas aqui. Sempre. Podias nunca me ter dito nada que ao mostrares-me a fotografia perceberia tudo: saberia as tuas dores, as tuas mágoas, as tuas histórias, os teus voos. Saberia que, mais do que tudo, precisarias de quem te fizesse aguentar a tua estadia terrena. Serás deusa outra vez, minha querida, acredita em mim.

Mas até lá, esquece-te dos céus e aproveita a Terra.

Para a Sara

Das Poesias II – Fado para a Lua de Lisboa

Ó Lua, espelho do chão
que andas no céu pendurado,
holofote da ilusão
pelo turismo alugado,
não ilumines em vão
os sulcos do empedrado!

Denuncia nas valetas
as sombras que tu arrastas:
prostitutas, proxenetas,
silhuetas de pederastas…
Colos brancos. Rendas pretas.
Casas tortas. Pedras gastas.

As rugas do sobressalto,
Ó Lua não as destruas!
Tu viste carros de assalto
rondarem por estas ruas;
viste rolarem no asfalto
vestes mais alvas que as tuas.

Foste a lua a que se expunha
aos tiros a multidão;
espelhaste na tua unha
a secular aflição;
e já foste testemunha
dos fogos da Inquisição.

Procissões do Santo Ofício…
Fileiras de condenados…
À noite, nem só o vício
rasteja por estes lados:
as serpentes do suplício
silvam nos pátios murados…

Ó Lua, guarda o retrato
de tudo, tudo a que assistas!
Não queiras passar ao lado
da desgraça que visitas!
Nem queiras ser infamado
passatempo de turistas!

Clorofórmio dos enfermos,
se foges dos hospitais,
então recolhe-te aos ermos
desertos celestiais!
E enquanto te não merecermos
não te acendas nunca mais!

David Mourão-Ferreira

Sem Título

Exercitamos sempre a mente como crianças. Imaginamos, brincamos ao faz de conta, pensamos “e se fosse eu ali?”. Será maior a frequência das vezes que nos imaginaremos bombeiros, médicos, astronautas, reis, deuses ou pais do que taxidermistas, escravos, mendigos, funcionários públicos, jardineiros ou lenhadores.
Hoje faço o raro exercício de me imaginar editor de jornal. Um jornal qualquer, mas não num dia qualquer. Não nos imaginamos médicos a salvar uma vida qualquer, imaginamo-nos médicos a salvar uma determinada vida. Imagino-me editor de um qualquer jornal há quarenta anos atrás. A missão? Escolher um título para a capa, claro. Todos os jornais do mundo terão títulos sobre a Lua, sobre o feito, sobre os homens que pela primeira vez lá foram. Hoje, quarenta anos depois ninguém se lembrará das outras notícias menores que estarão também na capa. Tenho de encontrar um título. Um bom. Mentira, um óptimo título. Um que fique, um que seja histórico como a frase de Neil Armstrong. Que poderia ter dito ao chegar à Lua a frase de um outro Armstrong, este de nome Louis, “What a Wonderful World”.
Perco horas a imaginar o título. Já podia ter saltado de ideia, já podia ser Armstrong a imaginar uma outra frase para ficar na História, ou poderia ser Kennedy a prometer a Lua. Não, continuo preso ao editor que quer que o mundo lembre a capa do seu jornal. Escrevem-se os artigos, as poesias jornalísticas do dia em que o homem, pela primeira vez, caminhou fisicamente na Lua. A redação está ao rubro. Mas espera-se um título, uma frase que não será histórica mas contará a História. “The Eagle has landed” Ocorrem-me metáforas com pássaros, comparações a deuses. Armstrong, Aldrin. Partilho com eles a primeira letra do nome. Aldrin, André, Armstrong. Poderia ter sido eu, não fosse eu um pobre editor de jornal.
Vem-me à cabeça um livro infantil: “Flicts”. O livro conta a história de uma cor que procura o seu lugar no mundo. Termina com Neil Armstrong a confirmar: “The Moon is Flicts”. Só lá, a cor encontrou o seu lugar. Não poderia ter sido este o meu título, mas era um dos bons: “A Lua é Flicts”.
“Só falta o título, senhor editor”, diz-me um qualquer personagem do meu sonho, despertando-me para a hora da decisão no meu mundo imaginado. E deixo para trás as cores, as poesias, as autenticidades jornalísticas ou as frases históricas.
Decidi-me por não ter nenhum título, apenas uma foto. Na altura não seria possível pois provavelmente não chegaria a tempo de ser publicada, a tecnologia não o permitiria, sei lá: não sou um editor a sério e de jornalismo sei pouco. Ficaria esta foto apenas. Sei bem que o que nos levou lá foi apenas a vontade imensa de nos vermos a nós próprios. Como quando capturamos as cores num quadro ou esculpimos um poema, como quando amamos com o dom da amizade ou com o dom do amor, resume-se tudo a expelir-mo-nos para que nos vejamos em outras formas ou nos outros. De fora. Vermo-nos. Da Lua.

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Das Cidades Portuguesas II – Coimbra

Diria que és um rio promovido a cidade, numa espécie de simbiose urbanístico-fluvial como se fossem primos que partilham o sangue, o apelido e nada mais.
És a cidade do meio, a mediadora entre o grande Pai do Norte e a grande Mãe a Sul. Mas todos sabemos que, e até geograficamente, estás mais perto do pai do que da mãe. E o que sempre gostei em ti foi a dignidade com que te soubeste manter no meio, lembrando-te sempre que passariam por ti, mesmo quando não quisessem, no caminho aórtico português.
Fizeram-te doutora no cimo de ti, para que o rio visse e se lembrasse que gerara uma sábia. Ou foi a sabedoria que te fez rio? Se foi a cátedra que te fez crescer para o céu, foram os filhos de outras mães que educaste que mais te amaram na arte.
O Homem dos Braços de Guitarra tocou-te a saudade para que a ouvisses e soubesses que nome tinha o que sentias pela princesa cujo sangue há-de sempre ficar lá na pedra.
Na pedra disseram-te mais encantadora na hora da despedida. Nunca pela tristeza do adeus mas pelo mistério da saudade e pela vontade do regresso.
Ou será que não tendemos sempre para o meio?

Do fracasso

Ainda bem que falhaste. A sério. Achas mesmo que ias saber lidar com a glória da mesma maneira sábia com que lidas com a derrota? De que te valia a vitória se a ias desperdiçar em cortejos épicos e coroas de louros a encimar-te a cabeça?
Senta-te a um canto. Sozinho: só tu é que perdeste, nunca na derrota terás alguém contigo. Sentes o cheiro? Cheira à rigidez dos corpos pálidos, sente a cadaverina que se eleva do chão e te embebe a armadura. Ou será mortalha? Ou será pele? Ou será nada?
Porque olhas o horizonte? Tentas nele perscrutar alguma nuvem mais densa. Querias mesmo que chovesse. O mundo não tem de pactuar contigo na derrota, sabes disso. Se te tivessem feito morto ou prisioneiro ser-te-ia agora indiferente a chuva que não cai. Pena que os teus carrascos não saibam a vitória como tu sabes a derrota. Olha, outro que deixou de gemer. Vês a vida esvair-se de um dos teus mais jovens soldados. Vês os seus olhos procurarem a vida dentro de si. Crueldade tamanha teres de ver a tua obra-prima sucumbir em frente dos teus olhos.
Uma lança partida, uma espada entortada, uma flecha cortada, uma adaga cravada. Uma armadura perfurada, uma túnica rasgada, uma sandália esquecida. A relva rubra, o sangue enegrecido. A vida extinta. A derrota.

– Não voltes a pintar mais quadros destes, sim?
– Não voltes a derrotar-me desta forma, sim?

Rule #1

“It doesn’t matter Whatever you think matters-doesn’t. Follow this rule, and it will add decades to your life. It does not matter if you are late, or early; if you are here, or if you are there; if you said it, or did not say it; if you were clever, or if you were stupid; if you are having a bad hair day, or a no hair day; if your boss looks at you cockeyed; if your girlfriend or boyfriend looks at you cockeyed; if you don’t get that promotion, or prize, or house, or if you do. It doesn’t matter.”

Roger Rosenblatt em “Rules for Aging: A Wry and Witty Guide to Life”

Das Cidades Portuguesas I – Aveiro

Não és, nunca foste e nunca serás a mais bonita. Falta-te o espaço, falta-te o centro, falta-te a praça grande a fazer-te de coração, falta-te a luz, falta-te a identidade: és daquelas cidades em que se constrói tudo porque não tens nada. Existes vazia, como se nunca ninguém te habitasse, como se em ti apenas se passasse e nunca se ficasse. Nunca em ti nada é antigo e mesmo o mais antigo parece falso: foi construído, não nasceu ali.
Espraias-te na direcção do Oceano mas recusas-te a chegar a ele, preferes adormecer numa ria que não é ria. E até nisso és falsa! Quem chega a ti vê-te fechada em ti, com uma ponte e um canal por baixo, como uma tentativa de seres um pequeno postal de uma Veneza falhada. Queres esconder o quê? Tens alguma grandeza em ti ou pretendes apenas ocultar que não a tens?
Construam em ti o que quiserem, serás sempre vazia. Todas as casas serão sempre alugadas, nunca ninguém as comprará, nunca ninguém te escolherá para a vida. Construirão em ti castelos com o sal que te extraem mas atirar-to-ão outra vez assim que se fartarem. Em ti os castelos serão sempre uma brincadeira de crianças.

Passa-se por ti, não se fica.

Das poesias I

“Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias.”

Sophia de Mello Breyner Andresen, Poesia (1944)

Das casas para Venda – I

“Sabe, nunca ninguém cá viveu a sério. Houve uma miúda que teve isto alugado durante uns meses mas foi embora. Dizia que não lhe compensava: o que ela queria era que lhe descessem a renda. Ainda voltou há pouco tempo, a ver se o truque funcionava, mas acabou por desistir. Também lhe digo: é natural que não lhe compensasse, já que ela não sabia aproveitar a casa que aqui tinha. Está a ver esta janela? Tem uma das melhores vistas da casa. Sabe o que ela lhe fez? Tapou com um móvel. Dizia que lhe incomodava tanta luz. E quem diz esta janela, diz outras a que ela fez o mesmo. Em algumas meteu uns reposteiros pesados que ás vezes, com esforço, abria para deixar entrar alguma luz mas que no resto do tempo estavam fechadas. Sabe o que valeu? Quando foi embora levou tudo. Tudo, tudo, tudo. Mas o senhorio disse logo que a partir de agora era para vender. Alugar nunca mais! Dá-lhe demasiado trabalho aguentar estas coisas todas. Como é que nunca ninguém a comprou? Olhe, nem sei bem. Primeiro o dono queria vender isto a todo o custo. Depois como ninguém queria comprar, tentou que alugassem mas mesmo assim isto estava sempre vazio. Esteve aí outra moça há muitos anos, mas só esteve um mesito. Nem chegou a assentar. O que é estranho nisto tudo é que é uma casa boa, tem uma vista lindíssima e é espaçosa mas flexível ao mesmo tempo. Veja esta cozinha, que categoria! Grande e equipada, como se quer. E o jardim? Já viu bem isto? Tem aqui espaço para uma piscina, se assim quiser. Para viver aqui em família, é uma maravilha. Tem espaço para a canalha e para um animal que queira. Além do espaço para arrumação. Sinceramente, não percebo. Sei que do lado da rua não tem o melhor aspecto mas bastava terem-se dado ao trabalho de visitar que viam logo que valia a pena. O sotão? Não lhe vou mentir: é o pior da casa. O senhorio guarda lá as tralhas dele e tem aquilo cheio de lixo. Caixas, caixas e mais caixas, todas cheias de pó. Sinceramente nem sei o que tem lá dentro. Acho que são coisas da escola: livros e cadernos e não sei que mais. O senhorio anda há anos para limpar aquilo mas ainda não se decidiu. Outro dia disse-me que ia mandar limpar aquilo. Vamos a ver se é desta…”